segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Abraços partidos - Pedro Almodóvar

Nesse fim de semana dei-me de presente o novo filme do Almdóvar: "Abraços partidos".
A começar pelo título, o longa é pura poesia.
Emocionou-me o balé de imagens da fotografia maravilhosa: sapatos que "falam", pernas que dialogam, braços que quase se tocam.
Chorei muito durante a exibição.
Não. Não é triste o filme. Mas, a forma como se pode dizer tanto a partir das imagens tocou-me profundamente. O uso das cores marcantes, os cortes precisos, as cenas em que se "vê" o toque sutil do personagem que enxerga com as mãos...tudo é um convite a sentir a beleza do amor, dos encontros, dos abraços e das partidas.
Penélope Cruz - cercada por excelente atores - está maravilhosa. Confere verdade a uma personagem que tinha tudo para ser um clichê. Desenha nuances, medos, conflitos, vontades e contra-vontades. Além de colocar sua beleza estonteante e camaleônica à serviço da humanidade de Madalena.
Por fim, pensei muito sobre a metáfora do título. Em várias cenas, há braços que quase se tocam e abraços que se desfazem de maneira bruta. Alguns pelo medo. Outros, pelas circustâncias.
No entanto, há aqueles que de fato arriscam o envolvimento, o salto, a proximidade entre a cadência das batidas do coração, o toque das mãos e dos corpos que se cruzam. Para esses, tudo é possível. Até mesmo amar aquilo que jamais poderão possuir.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Literaterapia


Há cerca de dois anos perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida: minha terapeuta Olga. Curiosamente, "apaguei" da mente a data. Não lembro o dia exato. Sei apenas que foi em uma quinta-feira chuvosa de dezembro que recebi a notícia de sua morte solitária e surpreendente.
Nunca havia experimentado uma dor desse tamanho.
Durante 14 anos, entrar naquele consultório numa ruazinha arborizada da Santa Cecília foi um espaço de encontro. O que via semanalmente naqueles 50 minutos (às vezes intermináveis, noutras, fugazes) nem sempre foi o que gostaria de enxergar. Era eu mesma, em minhas múltiplas faces. Algumas surpreendentes. Outras sombrias. Todas minhas. Inegavelmente.
Entre risos, choros e longas conversas ou monólogos, ela esteve ali: presença constante. Espelho. Interrogação. Abraço. Repreensão.
Olga levou consigo uma parte da minha história que ninguém mais saberá. Com a sua morte percebi o quanto aprendi sobre mim e, curiosamente reconheci minha ignorância sobre ela.
Quem era aquela mulher? Quais eram os seus interesses? Que
impressões construiu a meu respeito? Nunca soube muito sobre isso.
Cercada por seus parentes e alguns poucos amigos e pacientes, ao me despedir de seu corpo, descobri que uma das pessoas que mais me conheceu foi, em grande parte, estranha para mim. Um curioso paradoxo do processo terapêutico: a distância criando proximidade.
Vez por outra sinto muito a sua falta.
Sei que essa ausência será permanente. Em alguns momentos desejo voltar aquele sofá e encontrar seus ouvidos, seu olhar, suas perguntas perspicazes, sua lucidez em meio as minhas crises.
Mas, esse foi um outro tempo. E agora, como ela mesma me disse tantas vezes, chegou o tempo de buscar meu "terapeuta interior".
Nesse ano, reencontrei-a nas páginas da literatura. Na obra do escritor terapeuta ou vice-versa Irvin Yalon.
Os livros têm dessas coisas. Eles nos trazem de volta aqueles que já foram, mundos que não mais existem.
As palavras têm o poder de prender o tempo. Suspender. Eternizar.
Comecei com "Mentiras no divã" e, pela primeira vez, estive do outro lado do sofá daquele consultório. Vi-me por meio dos olhos de quem analisa. De quem reconhece a fragilidade do outro e estende a mão.
Penso que terapeutas fazem isso. Constroem pontes para nossos múltiplos lados. Para que possamos reconhecer a nossa diversidade.
Como descobrem a matéria de que são feitos esses caminhos? Não sei.
Através da ficção o autor nos dá algumas pistas sobre isso.
Nessa semana terminei outro de seus livros: "Mamãe e o sentido da vida". Nesse, algumas histórias são reais e outras não. Em todas, Olga - nas palavras de Irvin - esteva lá. Desvelando sonhos e falando comigo sobre o grande momento final: "a morte" - tema da maior parte dos contos da obra.
Para Irvin, nossa sociedade criou mecanismos que nos afastam do sofrimento, da velhice, da passagem dos anos. Isolamos nossos doentes, mantemos nossos idosos distantes, usamos cremes e cirurgias para negar que o tempo que se esvai.
Por mais que nos esforcemos para negar essa verdade, há grandes perguntas que nunca terão resposta. Não sabemos o que existe antes de nascermos nem o que virá depois de partirmos. Essas são grandes vazios que precedem e encerram nossa existência ou nossa consciência.
Somos finitos. Essa certeza pode dar outro sentido às nossas experiências.
Estarmos próximos dessas questões, segundo o autor, inegavelmente nos aproxima da vida.
E é por me fazer pensar sobre esses dilemas e, de certa forma, voltar meus olhos para temas que ainda não ousei enfrentar, que continuarei fazendo memória dos encontros com Olga nas páginas de Yalon.



domingo, 1 de novembro de 2009

Minhas aventuras pela literatura latino-americana


Até bem pouco tempo atrás, meu conhecimento da literatura latino-americana resumia-se a Gabriel Garcia Márquez. Desde que fui apresentada aos maravilhosos "Cem anos de solidão", fiz como todos os apaixonados: corri atrás de mais, mais do mesmo. Li várias de seus livros. Emprestei alguns, comprei outros. 
Recentemente, em uma semana de férias, retomei meu contato com a delíciosa literatura produzida aqui: do lado de baixo do Equador. 
Primeiro com o romance "A trégua" de Mario Benedetti. Segundo ele, o amor pode ser uma trégua. Impossível não concordar. Penso que o amor é o que, de fato, nos dá a sensação de estarmos vivos. E, geralmente, ele nos surge quando menos esperamos. Numa conversa despretenciosa. Num sorriso que se encontra. Num olhar que se conecta. Em duas ou mais vidas que se encontram. E nos instantes em que dura o amor, é sempre, sempre mesmo,  um "descanso na loucura 
do mundo".
Numa dessas tardes chuvosas de outubro, caminhando por um lugar maravilhoso para onde fui nessas férias, a tempestade levou-me até "Tia Júlia e o escrivinhador" de Mário Vargas Llosa. Uma edição antiga, do "Círculo do livro", fez-me lembrar de uma tia que perdi recentemente e que foi, em parte, responsável por esse prazer que ainda hoje encontro na leitura. Era assinante do Círculo e sempre estava lendo alguma coisa. 
Alterando outra improvável história de amor às rocambolescas novelas de rádio, o autor constrói um romance de iniciação: um jovem que se apaixona por uma mulher mais velha. Passei algumas noites devorando o livro, com medo de que as férias acabassem antes das páginas. Como alguns amores, que queremos sorver com toda intensidade, sabendo que o desejo, a vontade e o prazer da convivência podem um dia acabar. E, às vezes, acabam.
Há muito tempo tenho esperado pela leitura de "As travessuras da menina má". E agora, em tempos de internet, pude "baixar" o livro e ler em meu mais novo brinquedo: um livro digital.
Lindo. Mais uma narrativa belíssima. 
Travessa, cruel, engraçada, corajosa, sofredora, intensa. A menina do título vira do avesso a vida de um homem metódico, para quem a vida podia ser totalmente previsível. Acabei ontem, pensando que alguns amores, quando não nos destróem, certamente tornam-se matéria para deliciosos romances. Como esse.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Mais estranho que a ficção - Marc Foster (2006)

O que realmente importaria se hoje fosse seu  último dia?
Sei que o tema pode parecer clichê. No entanto, as questões previsíveis, muitas vezes, rendem respostas inesperadas. E com um roteiro e um elenco de primeira, há muito o que dizer.
Às vezes, me deparo com essa pergunta e vejo que há tantas coisas que espero realizar antes do momento final...
Há muito desejo pela vida aqui dentro. 
Ainda assim,  a repetição do cotidiano me dá a rara ilusão de que possuo algum controle sobre os próximos acontecimentos que virão. E tudo parece certo. Previsível. Meticulosamente contado, como os números que cercam a vida de Harold.
No entanto, o Universo já provou o quanto essas certezas podem ser um engodo. 
E nem sempre são as grandes catástrofes que mudam o curso da história. Não da minha.
Às vezes, é preciso apenas um simples objeto - como um relógio, uma mudança em um pequeno detalhe,  um encontro em um supermercado, um livro esquecido sobre a mesa, um atraso que nos faz escolher outro caminho...para que percebamos a singularidade da vida.
Muitas vezes, basta apenas que o co-autor  altere uma variável e nada mais será como antes.
Acho que é disso que o filme trata: das pequenas coisas que cercam nosso cotidiano e, talvez, principalmente, da segurança e da "salvação" que esse  microcosmos aparentemente traz às nossas vidas. Nas palavras da voz da narradora desse filme maravilhoso: "Às vezes, quando nos perdemos no medo e no desespero, na rotina e na constância, na falta de esperança e na tragédia, devemos agradecer a Deus pelos cookies.
E, felizmente, quando acabarem os biscoitos, ainda teremos consolo em uma mão amiga na nossa pele ou num gesto gentil e afetuoso ou num apoio sutil ou num abraço carinhoso ou numa prova de conforto.
Sem falar em macas de hospital, tampões de nariz, folheados não comidos, segredos sussurrados, Fender Stratocasters (um tipo de guitarra) ou talvez alguma obra de ficção.
Devemos lembrar que todas essas coisas, nuances, anomalias e detalhes que parecem superficiais em nossa vida, estão aqui, na verdade, por uma causa bem mais nobre: eles estão aqui para salvar nossas vidas.
Sei que a idéia soa estranha, mas também sei que é verdade."
Para ter, ver e rever.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ficções - Jorge Luís Borges - Abril Cultural, 1972


Ganhei esse livro há um tempo atrás. O conto "A Biblioteca de Babel" foi o primeiro que li e um dos que mais me marcou. A pessoa que me deu esse livro foi quem me apresentou ao maravilhoso mundo do Borges. Tudo culpa dela. 
Depois disso, vieram outros contos do mesmo livro e mais alguns que "baixei" pela internet.
Nessa semana, reli a"A Biblioteca de Babel" e novamente fui tocada pela beleza das palavras desse escritor maravilhoso.
A ideia de que o universo possa ser uma biblioteca é, no mínimo, incrível.
Pensar que talvez seja possível que todas as histórias da humanidade estejam contidas em volumes que se dispõem infinitamente, em linguagens que sequer conhecemos é uma loucura deliciosa.
Sabe, na primeira vez em que li esse conto, pensei  que visitando a biblioteca nós podemos nos deparar com a história da nossa vida mas, se não entendermos a língua ou combinação de letras na qual ela foi escrita, esse livro será um livro como outro qualquer. Exceto pela singularidade de conter a nossa história.
Logo, dá para pensar que somos só mais um livro nessa biblioteca. E, no entanto, somos únicos.
Outra coisa que acho demais nesse conto, é a ideia que existe um Homem do Livro, que conhece toda a biblioteca. Estamos sempre procurando alguém ou alguma coisa que nos explique nosso lugar nesse universo. Não é demais isso?
E o fato de ninguém ter encontrado esse cara, não significa que ele não exista. Pois, a biblioteca é infinita e, talvez, em algum corredor ele esteja folheando o livro total . "Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca Se justifique."
Pensar que o universo seja esse espaço de leitura infinito é uma ideia tão linda...
Será que uma pessoa que não seja apaixonada por leitura conseguiria apreender as possibilidades que essa fantasia encerra? Não sei. Minha solidão, assim como a de Borges, alegra-se com essa esperança.
Delicioso. Profundo. Intensamente verdadeiro.
P.S. Outro conto que adoro é "O Jardim dos caminhos que se bifurcam". Mas, esse fica para outro post.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A viagem do elefante de José Saramago


Para começo de conversa, é Saramago. E se tratando dele, até quando não é excelente, é muito bom.
Há muito tempo atrás comecei a descobrir sua obra por meio do livro "O evangelho segundo Jesus Cristo", do qual não saí do primeiro capítulo.
Depois, algumas amigas leram "O ensaio sobre a cegueira" e tentaram me convencer a fazer o mesmo. Não conseguiram.
Até que, há uns cinco anos atrás, uma aluna de uma das turmas da faculdade na qual trabalhei, me falou com tanta paixão sobre a obra que não resisti. E adorei! Foi e é, até hoje, um dos livros que mais me impactou.
Nesse ano, ganhei de presente da Cínthia (outra apaixonada por livros), "A viagem do elefante". Desde abril ele está ali, ao lado da cabeceira, esperando para ser lido. Experimentado aos poucos entre uma leitura e outra. E foram tantas as pausas...
Demorou para que a minha viagem acertasse o passo. 
O livro narra um fato curioso: a viagem de um elefante por alguns países da Europa. Sim, um legítimo elefante indiano que foi dado de presente de casamento ao arquiduque da Áustria por Dom João III, rei de Portugal.
Para uma mente brilhante como a de Saramago, um episódio como esse é um excelente mote para discorrer de maneira bastante divertida sobre a natureza humana e também elefantina.
Ao longo do relato, o autor nos presenteia com algumas considerações maravilhosas como essa, por exemplo: "Como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa da alma humana é o labirinto. Com ela, tudo é possível." Adorei!!
Confesso que, em vários momentos, senti dificuldade em encontrar razões para seguir as passadas desse paquiderme. O ritmo do texto parece seguir os caprichos de Salomão. Não adianta nos apressarmos. É preciso respeitar suas pesadas passadas.
E não me admiraria se soubesse que Saramago fez isso de propósito. Para nossa delícia e deleite.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Algum dia - Peter H. Reynolds

Há alguns anos, achei esse livro numa prateleira dessas que costumam encher meus olhos nas andanças pelas livrarias afora.
Fui atraída pelo título, pela capa e quando descobri o conteúdo, entendi que não poderia ficar sem ele.
Curiosamente, nós nos encontramos (eu e o livro) em um ano no qual várias amigas próximas descobriram-se grávidas. Comprei-o para mim e, depois, seguidamente, fui presenteando cada uma delas com um exemplar. Sobrou apenas um. O meu. O qual já li nas oficinas do projeto "Letras de luz" em 2008 e que sempre folheio pensando se algum dia poderei fazer minhas as palavras do autor...
Sonho da maior parte das mulheres que, em alguns casos, torna-se uma pressão enorme para as solteiras depois dos 30, a tal maternidade ainda é uma questão não resolvida para mim. Não só pelo fato de não ter um parceiro a quem possa atribuir o papel de co-participante dessa empreitada, mas, porque imagino que essa deve ser uma escolha muito desejada. Sentida. Não posso nem dizer, pensada porque como bem diz o ditado, "quem pensa, não casa". Acho que só se aventura nessa jornada quem se lança. E confesso: ainda me sinto um pouco covarde para esse salto.
O livro é um convite à beleza da continuidade que nos motiva a povoar cada vez mais o mundo.
Não somos eternos. Mas, parte de nós pode seguir adiante naqueles que amamos e aos quais desejamos trazer à vida. E, embora não tenha ainda experimentado a batida de um outro coraçãozinho aqui dentro, senti a emoção desse pedaço de eternidade na primeira vez em que vi meu sobrinho - Arthur - no colo da minha irmã, depois, a chegada do Pedro com todas os traços que herdou de mim e, agora, com a sempre boa nova de que mais gente vem chegando a nossa família: minha cunhada está grávida!
Foi para ela que dei o meu exemplar desse livro.
A vida não pede mesmo licença e nos enche da promessa de alegria!
E é por isso que imagino, sempre que um novo ser começa a ser gestado (mesmo que apenas no sonho), passamos a imaginar que algum dia, um pedacinho de nós vai "passar o dedo na vida" e experimentá-la com toda intensidade. E só por isso, por sabermos que sentiremos a maior experiência de amor possível, talvez valha à pena sonhar, desejar e trazer ao mundo esse alguém.
Fiquei sem o meu exemplar e, certamente, comprarei outro. Ou, quem sabe, algum dia o ganharei de presente quando o desejo da maternidade bater à minha porta?

sábado, 6 de junho de 2009

Os diários de leitura

Desde o começo dessa aventura, mencionei que os diários eram uma proposta que seria incorporada ao Projeto Letras de Luz: iniciativa da qual faço parte com muito orgulho e convicção.

Entre os meses de março e abril fizemos a primeira oficina com os professores de algumas cidades de quatro estados brasileiros: São Paulo, Espírio Santo, Tocantis e Mato Grosso do Sul.

Falamos sobre propósitos e comportamentos leitores, sobre nossos gostos literários, sobre os desafios que devíamos nos impor ao longo do trabalho desse ano. 

Como todo primeiro encontro, o clima foi de encantamento mútuo e vontade de trocar idéias, de partilhar sonhos e projetos comuns. 

Confesso que fiquei bastante ansiosa por saber as impressões que as discussões que provocamos poderiam trazer. E com muita alegria pude constatar que  a segunda oficina foi um verdadeiro encontro com as histórias. As nossas, as dos livros, as dos colegas, as do mundo...Palavras povoaram nossa sala.

Começamos com os Diários de leitura. Capas cheias de criatividade e conteúdo repleto de comentários sobre as mais diversas experiências leitoras. Alguns fizeram suas próprias reflexões sobre livros  que descobriram nesses meses, como as crônicas de Rubem Braga. Outros criaram várias reflexões sobre o ato de ler, registrando-as por meio de colagens. Alguns preferiram copiar as citações, poemas, fragmentos que marcaram sua experiência leitora. Houve quem começasse listando os livros que leu, os que gostaria de ler, os autores favoritos etc. Muitos fizeram os diários das leituras feitas com os alunos. Páginas povoadas de recortes de jornal, receitas, contos, artigos, poemas. Dedicando esse momento para a leitura, descobrimos que ela está presente em todo lugar e pode ser experimentada sempre que ousarmos abrir espaço em nossas vidas para que as palavras sejam soberanas.

Discutimos sobre a importância das histórias na construção de nossas identidades. Somos aquilo que contamos.

O vídeo “Histórias” nos mostrou que povos do mundo inteiro já estiveram e estão ao redor do fogo, narrando acontecimentos fantásticos ou suas próprias epopéias diárias. E com isso, se aproximam, se aconchegam e se reconhecem humanos.

Ouvimos o “Apelo” de Dalton Trevisan nas vozes de diferentes colegas. Notamos que, embora as palavras sejam iguais e na leitura de um texto escrito prevaleça a fidelidade à forma como o autor se expressa, é em nossa entonação, em nossa relação com o texto que deixamos nossa marca para aqueles que nos ouvem.

Reconhecemos que o contar nos expõe: testa nossa memória, nos põe em contato direto com o grupo, abre-se para o gesto, para o tom coloquial e para a improvisação. Narramos e somos narrados a todo momento.

Houve também espaço para o jogo, para o riso solto. Para a palavra que ganha vida a partir da encenação. Muitos participantes experimentaram, pela primeira vez, a delícia da leitura dramática e a força do diálogo na construção de sentidos de uma cena.  Por alguns momentos, pudemos ser  Chicó, João Grilo, Padre João, o Padeiro, Major Antônio Morais, a Gorda, o Puxa, a Professora de Ciências e tantos outros personagens. Mais uma vez, o verbo foi soberano.

E notei que muitos saíram descobrindo-se contadores. Percebendo a importância de trazer de volta as narrativas. Reconhecendo a necessidade do planejamento, da escolha consciente, do preparo, da sensibilidade para estabelecer uma conexão com o grupo e resgatar a “arte de contar histórias”. Um ofício que pode ser acessado por todos aqueles que estiverem dispostos a deixar que a palavra esteja sempre presente em nossas experiências.

Mal posso esperar pelo terceiro encontro para saber sobre as histórias que foram contadas, os textos que foram lidos e as peças que foram levadas ao palco.

Com certeza, as vozes da escrita serão ouvidas muito longe... 

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Últimas leituras

Confesso que tem sido difícil atualizar esse espaço.
O ritmo da leitura nem sempre corresponde ao tempo necessário para comentar as descobertas que elas me trazem.
Por isso, optei, nesse post, por colocar a lista, seguida de brevíssimos comentários,  do que li/vi nesses dias:
Entre os muros da escola de François Bégaudeau. França, 2008.
Podia ser aqui do lado. Na escola que seu filho/seu irmão frequenta. Onde quer que seja, fica evidente que a forma que escolhemos para ensinar está em crise. E, para mim, o problema da relação professor-aluno é só um reflexo da falta de humanidade que temos experimentado em muitas outras esferas disso que chamamos de sociedade.
Faz pensar...
A questão humana de Nicolas Klotz. França, 2004.
Esse foi indicação do Val. E quando ele diz que é bom, pode conferir que vale à pena. O filme propõe uma boa reflexão sobre a eugenia, a qual condenamos tanto na história passada e que se faz tão presente no mundo corporativo dos dias de hoje. Queria poder dizer mais, mas durante a exibição tivemos que lidar com "a questão humana" de uma pessoa extremamente gripada sentada na fila de trás, que nos "presenteou" com frequentes fungadas durante os quase 180 minutos de exibição. Ninguém merece.
Meu nome é vermelho de Orhan Pamuk. Cia das Letras, 2004.
Esse eu li nas férias de janeiro. Há tempos queria postar um comentário aqui. São 19 narradores nos contando uma série de assassinatos. Em um dos capítulos há uma das descrições mais lindas que já li sobre o momento da morte. Sim, a passagem para "o outro lado" pode ser bonita e suave. Coisas que só mesmo a boa literatura pode fazer.
Watchman. Alan Moore e David Gibbons. Conrad, 1985.
Depois de ver o filme, me emprestaram os quadrinhos. Tive o privilégio de ler uma edição da época em que foi lançado. Páginas amareladas, algumas folhas se soltando...retratos de um outro tempo. Li devagar, saboreando cada página. Com medo que acabasse, de tão bom que estava. Não é à toa que foi/é tão cultuado até hoje. Vale à pena resgatar essa obra.
Toda casa precisa de varanda. Rina Frank. Record, 2009.
Esse foi um dos presentes que ganhei de aniversário. Trata-se de uma autobiografia que narra o cotidiano de uma família romena vivendo em Israel. Mais um retrato da cultura oriental, a qual tem despertado tanto nossa curiosidade nos últimos anos. Coincidentemente, nessa última semana, ao visitar alguns apartamentos, pensei que o título da obra é mesmo bastante pertinente.  Toda casa precisa ser um refúgio, sem deixar de se manter aberta para o mundo. Sim, toda casa precisa de varanda para que os horizontes sejam maiores e a vida possa encontrar passagem. Sempre.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Descobrindo mais sobre o mundo da leitura de imagens

Uma das vantagens de se fazer o que se gosta é quando seu trabalho também oferece a possibilidade de realizar as coisas com prazer.

Trabalhando com leitura, os livros são parte da minha vida. Uma parte fundamental.

Nos últimos meses, as postagens ficaram mais distantes aqui nesse espaço, justamente porque estive me aventurando pelo universo das imagens e elaborando uma das apostilas do projeto.

Seguem agora alguns comentários sobre os "queridos amigos", como diria Petrarca, que me acompanharam nessa jornada:

 

O outro lado. Istvan Banyai. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

Este é um livro que diz muito – sem usar uma palavra sequer. O autor, Istvan Banyai, é artista gráfico dos bons, perito em narrativas com imagens. Logo na primeira página, uma menina observa da janela um aviãozinho de papel voando lá fora. De onde ele vem? Ao virar a página, um garoto do apartamento de cima se diverte arremessando as dobraduras. Assim o livro segue, sempre com uma cena que se transforma na próxima página, despertando nossa curiosidade para folhar este livro-imagem em busca de um outro ponto de vista.

Depois de ZOOM e Re-ZOOM, achei que esse cara não me surpreenderia mais. Engano meu. O livro é uma delícia e, como os anteriores,  surpreende pela simplicidade do traço e profundidade das relações entre as imagens.

Modos de ver. Joh Berger. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Modos de ver é composto por sete ensaios que podem ser lidos em qualquer ordem, sendo que três deles usam apenas imagens. Ao todo, são utilizadas 155 reproduções de obras que hoje pertencem a acervos de importantes museus da Europa. Apesar de ser estruturado a partir de ponderações sobre a História da Arte, o livro transcende a sua função de pensar a questão estética e acaba fazendo o leitor refletir sobre a sua visão de mundo.

Meu ensaio favorito é o que fala sobre a representação da mulher nos quadros e na fotografia. O autor afirma que, diferentemente do homem, nas imagens estamos sempre dirigindo nosso olhar a um possível observador. Nos arrumamos, nos mostramos e nos exibimos não por uma questão funcional, mas, porque fomos educadas para a exposição.  Para pensar...

Dá-lhe Will Eisner

Narrativas gráficas: princípios e práticas da lenda dos quadrinhos. Will Eisner. São Paulo: Devir, 2008.

A obra discute os princípios da narrativa com a combinação sofisticada de texto e imagem. Apresentando exemplos utilizados na prática pelo próprio autor, além de artistas como Art Spieglman, All Capp, Milton Caniff e Robert Crumb, entre outros este tratado abrange as etapas da narrativa gráfica até uma visão mais ampla de suas aplicações. Embora as histórias em quadrinhos sejam o seu alvo principal, 'Narrativas Gráficas' também revela e ensina métodos que podem ser aplicados no cinema, na TV e na internet.

Um delicioso manual para quem curte o universo dos quadrinhos, escrito por um dos grandes mestres dessa arte. Bom para consultar e ter sempre ao lado, na cabeceira da cama.

Quadrinhos e arte seqüencial. Will Eisner. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

O livro baseia-se no curso que o autor ministrou por muitos anos na School of Visual Art de Nova Iorque e contém o acervo de suas idéias, teorias e aconselhamentos sobre a prática daquilo que ele conhece tão bem - contar histórias em quadrinhos. 

Esse eu achei também interessante, mas, seu foco é mais didático. O autor pretende ensinar os leitores sobre como produzir esse tipo de texto.  Novamente, o uso das relações entre palavra e imagens é primoroso.

A cor como informação: a construção biofísica, lingüística e cultural da simbologia das cores. Luciano Guimarães. São Paulo: Annablume, 2000.

Esse foi indicação de um amigo. Li só alguns capítulos, mas, aprendi coisas sobre as cores sobre as quais nunca tinha pensado.

Por exemplo, descobri que o vermelho é uma cor que chama nossa atenção porque seu comprimento de onda é o maior de todas as que conhecemos. Interessante, não?

O livro apresenta capítulos que abordam o tema em sua complexidade, mostrando considerações que esclarecem e enriquecem o repertório de todos aqueles que utilizam a cor na comunicação. Da exata delimitação da cor como informação cultural e suporte para a expressão simbólica na comunicação humana até a investigação dos processos de percepção e seus 'comportamentos' para a geração de sentido, o autor expõe um universo interdisciplinar, ancorado no que há de mais recente na bibliografia da Semiótica da Cultura e das Ciências da Cultura.

 

Lendo Imagens. Alberto Manguel. São Paulo: Cia das Letras, 2001.

Neste livro, Manguel passa ao largo do vocabulário árduo da crítica e defende a idéia de que os não-especialistas têm o direito de ler imagens como quem lê um texto. O autor narra histórias que se ocultam em pinturas, esculturas, fotografias e projetos arquitetônicos desde a Roma antiga até as arrojadas experiências da arte do século XX.

Ainda não li todo. Mas, como em sua outra obra História da Leitura é uma delícia acompanhar todas as informações dadas pelo autor através de sua narrativa fluente, cercada de ricas imagens e curiosidades sobre o tema.

O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador. Ieda Oliveira (org.) São Paulo: DCL, 2008.

Definir o que é qualidade em ilustração de livros de literatura infantil e juvenil não é tarefa fácil. No entanto, Ieda de Oliveira, doutora em Letras e especialista em literatura infantil e juvenil, reuniu um time de conceituados ilustradores brasileiros e portugueses para discorrer sobre o assunto, por meio de artigos e depoimentos. Uma obra-prima ilustrada pelas palavras dos artistas.O projeto gráfico do livro é lindo e, em cada capítulo um tema é abordado. No final, há um apêndice no qual alguns dos ilustradores mais conceituados tentam responder à pergunta que dá nome ao livro.

Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. Angela Rama e Waldomiro Vergueiro (orgs.).São Paulo: Contexto, 2008.

Nesse livro, os autores provam que os antigos preconceitos com as histórias em quadrinhos não têm nenhum fundamento. Por meio de exemplos práticos e muitas sugestões de atividades, o livro inspira inúmeras possibilidades de trabalho com as HQs em diferentes disciplinas. 

Confesso que gostei mais das sugestões para a área de Linguagem. Mas, achei também bem interessante o uso que alguns autores fizeram desse texto em outras disciplinas.

A leitura dos quadrinhos. Paulo Ramos. São Paulo: Contexto, 2009.

O autor esmiúça os principais pontos da linguagem, dos mais básicos, como os diferentes formatos do balão, até aspectos mais complexos, como as estratégias de movimentação dos personagens e o papel da cor. O livro também dá detalhes as características dos diferentes gêneros que compõem os quadrinhos, como as tiras, o cartum, a charge e outras variadas formas de produção dessa forma de arte. Um guia bem feito para quem deseja conhecer mais e aprofundar sobre o tema.

Palavra e imagem: leituras cruzadas. Ivete Lara Camargos Walty, Maria Nazareth Soares Fonseca e Maria Zilda Ferreira Cury. Belo Horizonte: Autêntica

As palavras gerando imagens e as imagens gerando textos verbais, num processo de deslocamentos e condensações, metonímias e metáforas são, pois, o objeto desse livro que se propõe a instigar leituras críticas, em tempos e espaços diversos. Tradição e ruptura se articulam na prática de leitura tematizada na casa e na terra, com que as autoras ilustram suas reflexões teóricas, associando poemas, crônicas, notícias de jornal, letras de músicas, fotos, propagandas ilustrações. 

 

terça-feira, 21 de abril de 2009

AUTHORITY "SEM PERDÃO" e "SOB NOVA DIREÇÃO" - de Warren Ellis e Bryan Hitch

Imagine uma equipe de super-heróis diferente de tudo o que você conhece?

Ouse pensar em um grupo de pessoas que decide colocar "a casa em ordem" doa a quem doer.

Suponha que esse time seja liderado por uma mulher (Jenny Sparks) que representa o espírito do século. Nasce, morre e renasce a cada cem anos. 

Uma pessoa para quem o altruísmo dos super-heróis não pareceu suficiente para resolver os problemas da Terra, até o momento.

Para ajudá-la a seguir a diretriz "vilão bom, é vilão morto", nada menos do que um casal de super-poderosos gays (Apolo e Meia-Noite), uma mulher que pode criar tudo a partir da linguagem dos metais e das máquinas (Engenheira), um homem capaz de conversar com as cidades (Jack Hawksmoore), uma caçadora alada (Swift) e um xamã que traz consigo a sabedoria ancestral, ironicamente chamado de Doutor.

Pouca conversa. Nada de longas explicações. A partir de agora, SEM PERDÃO.

Numa Terra ameaçada por terroristas, eles decidem assumir o papel de uma autoridade superior e dar início a um processo de mudança que não terá mais volta. E quando a força criadora, que deu origem à vida da forma como conhecemos resolve pedi-lo de volta, tentando eliminar 6 bilhões de seres humanos que estão "infectando" o planeta, os caras simplesmente resolvem matar esse ser que é o mais próximo do que poderíamos chamar de deus.

Daí em diante, a Terra estará SOB NOVA DIREÇÃO! 

Quem nunca fantasiou em ter super-poderes e nas infinitas possibilidades que isso nos traria, que atire a primeira pedra.

Bom texto. Deliciosas tiradas de humor e imagens maravilhosas.

Material de primeira para quem curte histórias em quadrinhos e anda sentindo falta de "um sopro de ar fresco" nesse universo de tramas requentadas e mais do mesmo. 

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Muita pipoca!!

Foram dois meses sem postagens, muitos livros lidos e vários filmes assistidos.
Mas, por que nenhuma anotação no diário?
Simplesmente porque o ritmo foi frenético e a quantidade de informação processada não encontrava tempo para ser digerida e exposta.
Mas, prometo recuperar o tempo perdido!
Comecemos pelos filmes:

O LEITOR de Stephen Daldry

Baseado no livro de Bernhard Schlink, o filme conta a história de um adolescente que se apaixona por uma mulher mais velha e vive um romance povoado de encontro secretos e leituras diversas. Oito anos depois, eles se reencontram em um outro contexto, no qual ela está sendo acusada de participar de crimes nazistas. 
Mais uma vez, saí do cinema com a certeza de estar diante de uma das melhores atrizes da minha geração. Kate Winslet empresta a dignidade necessária ao personagem, com uma interpretação verdadeira e comovente.
Fiquei pensando sobre a importância das palavras, da leitura e ao valor de algumas coisas que, muitas vezes, só pode ser percebido por quem não as possui.
The reader, EUA/Alemanha, 2008. Dire: Stephen Daldry. Vi em 8 de fevereiro.

DÚVIDA de John Patrick Shanley
"O que você faz quando não tem certeza?"
Se minha terapeuta ainda estivesse viva, talvez me respondesse, com em tantas outras vezes: "Se não sabe o que fazer, não faça nada."
O filme é maravilhoso e nos faz sair do cinema pensando que talvez o que torna uma obra cinematográfica inesquecível, sejam as boas histórias e excelentes atores. Nada mais.
Só pelo "duelo de gigantes" entre Meryl Streep e Philip Seymour, já valeria à pena dedicar alguns minutos para apreciar essa obra. Juntando a tudo isso um roteiro inteligente que nos faz pensar sobre a diversidade de pontos de vista e o quanto de injustiça podemos cometer quando não conseguimos nos colocar no lugar do outro, o filme se torna, simplesmente, imperdível.
"A dúvida pode ser um elo tão encorajador e certeiro quanto a certeza"
Doubt, EUA, 2008. Dire: John Patrick Shanley . Vi em 14 de fevereiro.

CORALINE de Henry Selick , baseado na obra de Neil Gaiman.
O filme é uma fábula de terror que conta a história de uma adolescente entediada em sua nova casa, cansada da falta de atenção de seus pais. Em uma de suas explorações pela vizinhanca, ela descobre uma passagem secreta para um outro mundo, onde encontra uma "outra família" que, supostamente, lhe dará a atenção que tanto deseja.
Sendo do mesmo diretor de outro filme que eu adoro "O estranho mundo de Jack" e baseado na obra de um dos meus escritores contemporâneos favoritos, fica bem difícil não emitir vários elogios: o visual é espetacular, a animação - toda feita em stop-motion -  é a primeira desse tipo em 3D, a trilha sonora é um capítulo a parte e a trama, um convite à fantasia no melhor estilo Lewis Carroll. Imperdível! 
Coraline, EUA, 2009. Dire: Henry Selicks. Vi em 18 de fevereiro.



A TROCA de Clint Eastwood
Para começar, é do Clint Eastwood ou "Clintão", para os mais íntimos. Até hoje, tenho acompanhado todos os filmes dirigidos por ele sem nenhuma decepção. 
O bom cowboy americano sempre trata de temas nada fáceis e não poupa o público de sair do cinema com milhares de perguntas e, muitas vezes, extremamente incomodado.
Ainda não sou mãe. Mas, imagino que talvez não haja dor maior no mundo do que a perda de um filho. E quando essa perda vem cercada de mistério, brutalidade e descrédito... a vida não se torna nada fácil.
Não dá para sair do cinema sem pensar na dualidade que é ser humano. Na possibilidade de roubar de outro aquilo que lhe é mais precioso e, por outro lado resgatar e oferecer abrigo aqueles que precisam apenas de alguém em quem confiar.
Sensível. Inteligente.
Destaque para a atuação de Angelina Jolie (que deve ter chulé ou bafo, porque além de linda, excelente atriz, ainda é esposa do Brad Pitt) e para o garoto que ajuda a desvendar toda a trama: ainda vamos ouvir falar muito desse menino!
Changeling, EUA, 2009. Dire: Clint Eastwood. Visto em 21 de fevereiro. 

WATCHMEN 
de Zack Snyder
Depois de seis semanas conversando sobre a poética dos quadrinhos, era de se esperar que eu estivesse aguardando ansiosamente por essa estréia. Embora, esteja lendo a história apenas agora, já sabia que essa é considerada uma das melhores graphic novels dos últimos anos. 
Alan Moore, autor da obra, mais uma vez, se opôs à adaptação da mesma para o cinema. E têm suas razões.
No entanto, contra tudo e contra todos, fui lá conferir e gostei bastante. Achei um pouco longo e talvez tenha faltado mais ritmo a algumas cenas. 
Agora, nessa última semana, quando estou terminando de ler a história original, dá para entender porque o texto é tão cultuado.
Para quem costuma dizer que HQs são um tipo de narrativa menor ou não são para adultos, sugiro que leiam a saga. Se isso não for literatura da mais alta qualidade... creio que estaremos todos muito enganados!
Watchmen, EUA, 2009, Zack Snyder. Vi em 8 de março.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO ? de Danny Boyle
Ainda não entendi porquê esse filme ganhou 8 Oscars... Todos sabemos que é uma premiação tendenciosa, elitista etc etc.
O longa é bom, o roteiro é bacana, os atores também mas, 8 Oscars! Para mim, foi demais!
Opiniões pessoais à parte, os contrastes entre a miséria e a riqueza em outro país que não seja o nosso revelados pelo filme, me mostraram o quanto ainda estamos longe de uma sociedade mais humana.
Confesso que fiquei incomodada.
Talvez porque estejamos - em parte - anestesiados e as diferenças sociais que nos afrontam todos os dias  e são pouco a pouco,  naturalizadas... Ou porque nos contentamos em partilhar a alegria de apenas um "favelado" que - da noite para o dia - torna-se milionário e, com isso, sejamos levados a esquecer os milhares de miseráveis que sustentam essa pequena riqueza.
Slumdog Millionaire , EUA/Inglaterra, 2008. Vi em 14 de março.

Nesses últimos dias, fiz uma pausa nos cinemas. Logo, logo, contarei as aventuras que andei experimentando no mundo da leitura de livros que falam sobre imagens.
Aguardem!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Uma história contada em quadros.


Desde criança minha vida foi sempre contada em quadros.
Filha e neta de fotógrafos, em minha família, cada passo, cada conquista, cada novidade, muitos dos instantes mágicos que marcaram a misteriosa passagem do tempo foram apreendidos pelas tantas objetivas que passaram pelas mãos dos meus pais.
Nas prateleiras e armários da sala, guardados como relicários estavam nossos álbuns com uma breve cronologia em imagens de tudo o que quiseram preservar da nossa história. E foram vários álbuns!
Curiosamente, a “leitura” desses livros seguia um roteiro já bastante conhecido: cada imagem apresentada era seguida das narrativas que contavam sobre os personagens fotografados, o passado e o futuro dos instantes registrados. Histórias tantas vezes contadas que pareciam ter abandonado aquilo que chamamos de mundo real.
Nas paredes, outros momentos foram pendurados... Fragmentos de um tempo que queríamos elevar, suspender, eternizar, fazer memória: batizado, primeiro dia de aula, festas escolares, primeira comunhão, dentes caídos, dentes nascidos, os cortes de cabelo, a brincadeira com a roupa da mãe, crisma, 15 anos, viagens, cenas do cotidiano, os espetáculos encenados pouco antes do Jornal Nacional, nossos tantos aniversários, as corridas de bicicleta na rua, os joelhos machucados, os casamentos, os nascimentos...
Ao ver e contemplar todos os dias essas tantas fotografias, aos poucos fui sentindo que parte da minha vida já havia sido, irremediavelmente, evadida para o mundo da fantasia...
Talvez por isso o salto para os contos de outros universos tenha sido apenas conseqüência de uma certa curiosidade sobre o que se escondia além das minhas próprias aventuras.
Primeiro os contos de fadas e os textos bíblicos lidos por minha mãe ao pé de três camas e de um pequeno berço. Ambos seguidos por imagens coloridas preenchidas com tudo o que nossa imaginação tão rica em sonhos quisesse acrescentar.
Depois, a descoberta da semelhança entre as minhas aventuras e a de uma outra turminha do bairro do Limoeiro. Um “namoro” que durou longos anos, com pilhas e pilhas de gibis guardados dentro de um baú na cabeceira da cama. Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Horácio, Tina, Chico Bento, Rolo, Piteco e o Astronauta foram responsáveis por me incutir o vício da leitura antes de dormir. Não havia possibilidade de sonho se não fosse precedido por alguma história, mesmo conhecida, já tantas vezes lida nas revistinhas da minha extensa coleção.
As brincadeiras com os clássicos da literatura universal, o resgate do folclore brasileiro, as metáforas, o uso contínuo da metalinguagem em alguns desses quadrinhos foram a porta de entrada para muitas outras leituras.
Então vieram as personagens da Disney: Pato Donald, Margarida, Mickey, Tio Patinhas, Pateta e tantos outros. Esses ficaram por pouco tempo. O colorido me parecia confuso e, para mim, faltava mais humor e coerência a algumas histórias.
O grande salto foi o encontro com o maravilhoso mundo dos super-heróis. Nas revistas cultuadas por meu irmão mais velho, a aventura da transgressão em invadir seu quarto e ler às escondidas suas histórias era apenas o prelúdio dos universos que se abririam para mim.
A sensualidade presente na representação da figura feminina, os arquétipos revividos nas entrelinhas das sagas de alguns heróis e a ansiedade pela espera da continuidade das narrativas foram o ingrediente que faltava para que minha paixão pelas imagens e suas histórias se consolidasse.
Primeiro “Super-Homem” e sua soberba diante da humanidade. Depois “Homem-aranha” e seus vilões cercados de temas científicos. A deliciosa escola do Professor Xavier e seus alunos repletos de poderes que sempre desejei possuir. A corajosa e, quase sempre, indestrutível “Liga da Justiça”.
Esses heróis me levaram a uma das mais deliciosas experiências literárias da minha juventude: a descoberta da mitologia grega. Foi por eles e com eles que li e reli toda a coleção das Aventuras Mitologógicas disponível na biblioteca da escola onde cursei o ensino médio.
Suas aventuras passaram a ser minhas. As experiências vividas pelas personagens dessas histórias fazia parte das conversas que tinha com meu irmão e, muitas vezes, os acontecimentos de cada revista eram relatados por nós como se tivessem ocupado a primeira página de algum grande jornal dominical, afinal, lá nos EUA tentaram matar o Super-Homem e parecia pouco provável que o Professor Xavier e seus alunos não conseguissem derrotar os próximos vilões!
De todos os heróis dessa fase, Batman foi o que mais impacto me causou. Talvez porque meu interesse por essa personagem tenha coincidido com a fase da vida em que muitos dos meus valores foram postos à prova. O momento em que dolorosamente comecei a perceber que os heróis de verdade não existiam e, que se existissem, teriam grandes conflitos como nós. Foi o fim da infância. Mas, não da fantasia.
Com os heróis vieram as tiras do cotidiano: Calvin e Haroldo, Garfiel, Niquel Náusea, Angeli, Snopy, Mafalda, A turma do Xaxado e tantos outros lidos diariamente no jornal após uma breve consulta aos astros nas previsões do horóscopo.
Por um bom tempo houve um hiato entre o meu mundo e o universo dos quadrinhos. Eles estavam lá, nas leituras das horas vagas, em algumas conversas com amigos, mas deixaram a cena principal e viraram meros coadjuvantes. Outras leituras ocuparam minha vida. Fui eu mesma em busca das minhas próprias imagens, resgatando o desejo de manter a tradição da fotografia na família.
Por ironia do destino, foram essas mesmas imagens que me aproximaram de um fotógrafo apaixonado por quadrinhos. Com ele fui apresentada a uma coleção repleta de grandes amostras da alta qualidade poética e gráfica desse gênero: da deliciosa biografia do Buda de Osamu Tesuka à violenta saga de “Preacher”, do sangrento “V” de vingança” ao sensual “Garotas perdidas”, do histórico “300 de Esparta” à onírica saga de “Sandman”...
Heróis outrora abandonados também voltaram com esse encontro: Batman, Superman, X-Men... e com eles, a construção de uma deliciosa relação sempre mediada pelo mundo da leitura.
Embora nossos caminhos tenham seguido rumos diferentes, nada seria igual depois desse resgate. Pessoas, assim como histórias, desenham marcas, levam e trazem coisas à nossa vida. Muitas vezes, como nesse caso, elas apenas retomam paixões que estavam esquecidas.
Em meio a tantas palavras e imagens que povoaram minha memória, minha história foi e continua sendo escrita quadro a quadro. Traço algumas linhas do roteiro e tenho, raramente, a sensação de que possuo algum controle sobre a obra. O resultado quase sempre causa surpresa, estranhamento, alegria, medo e muitas outras emoções que desconheço. Mas, isso nunca me impediu- e espero que nunca me impeça - de virar a página e experimentar intensamente o que virá.

Texto escrito para o curso "A póetica dos quadrinhos", ministrado por Reynaldo Damázio na Casa das Rosas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Foi apenas um sonho

O que é um bom filme?
O que caracteriza uma boa história?
Não sei. Mas, para mim, as melhores narrativas são aquelas que nos fazem olhar a vida de uma nova forma. Que mexem com nossas certezas, trazendo-nos algum tipo de perturbação.
Se for assim, Revoltionary Road - que assisti ontem - é um ótimo exemplo de bom texto, aliado ao excelente trabalho de alguns atores e um diretor que sempre tem algo a nos dizer.
(Recuso-me a usar o título em português, repleto de interpretações e de respostas fáceis às perguntas dificílimas que o longa propõe.)
Confesso que durante a exibição senti no ar um certo incômodo entre os presentes. Estranhei os risos nervosos em resposta aos diálogos ácidos entre as personagens.
As pessoas mudavam de lugar, prendiam a respiração... Talvez com medo de aspirar a verdade gritada a plenos pulmões.
E como é difícil dar voz a lucidez da loucura!
Impossível assisti-lo sem sentir um "nó na garganta" frente aos dilemas do casal e às questões que o "american way of life" ainda tão presente em nossa cultura nos provocam.
Duas pessoas se encontram, cheias de sonhos. Casam, têm filhos, compram uma casa, obtém o seu sustento e ...
Quantos de nós já não nos perguntamos se as escolhas que fazemos são resultado de nossa vontade ou apenas uma resposta aos modelos que fomos levados a crer que deveríamos seguir?
Quantas vezes fomos capazes de olhar a nossa vida e tivemos coragem de procurar resquícios dos sonhos que tivemos anos atrás?
Quantos nos aventuramos a buscar as respostas possíveis às nossas verdadeiras inquietações?
Não sei.

Levarei um bom tempo para digerir esse filme.


Revolutionary Road, EUA, 2008. Dire: Sam Mendes. Com: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio e Kathy Bathes. Estréia em 30 de janeiro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Diário de um apaixonado - Sintomas de um bem incurável - Fabrício Carpinejar - Mercurio Jovem


Um dos problemas de ser apaixonada por leitura é a atração irresistível que as livrarias exercem sobre a gente.
Comigo é sempre assim: entro para ver. SÓ PARA VER. E sempre, SEMPRE saio com alguma coisa.
Algumas vezes, chego com um interesse específico. À procura de um determinado título e, até encontrá-lo, já descobri muitos outros e lá se vai mais um livrinho!
O problema é que eles colocam tudo ali: à disposição. Fácil, fácil. Como doces, deliciosas sobremeses (para quem gosta delas). Aí complica.
Foi assim que encontrei esse livro: "Diário de um apaixonado - Sintomas de um bem incurável", sorrindo, maliciosamente, para mim lá de uma das prateleiras da tentadora seção de livros infantis da Livraria Cultura.
Além do título, chamou minha atenção o autor: Fabrício Carpinejar.
Há muito tempo atrás fui apresentada ao seu blog pela Dé, irmã da Cris Tavares. E adorei os seus textos.
No caso desse livro, o tema é desafiador e o risco de cair no clichê é grande.
Mas, não é o que acontece.
Fabrício define alguns comportamentos desse estado de um jeito divertidíssimo. Me identifiquei com muitas delas:
"O apaixonado é um comovido à toa."
"Ele larga seus hábitos,para conhecer verdadeiramente quem ele gosta. Faz greve de sua personalidade." (E não é verdade?)
"O apaixonado faz de conta que não está amando para se surpreender com a notícia."
"...por que os apaixonados saem para jantar se não comem?"
"O homem está apaixonado quando explica sua infância. A mulher quando não fala mais dela."
"Passa a se amar menos, para que o amor-próprio não rivalize com sua paixão". (Essa é ótima)
"Todo apaixonado sofre de prisão de ventre."
"O celular do apaixonado está fora da área de cobertura ou desligado."
E a mais deliciosa de todas:
"O apaixonado gosta de saber se o par está sentindo o que ele está sentindo, mas precisa ser igualzinho." (Essa é para nós, mulheres.)
Para ler, rir e desejar a paixão sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O curioso caso de Benjamin Button

Como a maior parte de vocês deve ter visto na mídia, o filme conta a história de um homem que já nasce velho e, com o passar do tempo, vai tornando-se jovem.
Tem dois dos melhores atores dessa geração- Cate Blanchett e Brad Pitt - em atuações maravilhosas, um roteiro sensível e bem amarrado.
Baseado em um conto homônimo de F. Scott Fitzgerald, o caso é realmente curioso.
Mas, para mim, a história vai muito além disso.
Em todas as matérias que li sobre a obra, os críticos fizeram questão de ressaltar a duração do filme. Sim, são 166 minutos.
Já não se fazem mais longas assim...
Engraçado.
O tempo é justamente o mote do enredo.
Saí do cinema emocionada. (Ultimamente, tem sido assim. E tenho achado ótima essa mudança.)
A história é linda. É contada a partir das inúmeras personagens que cruzam a vida do protagonista.
Mostra que os fios da nossa narrativa são tecidos em meio a tantos encontros e desencontros. E são as relações que construímos que dão forma à nossa existência.
O curioso caso de Benjamin Button poderia ser a experiência de qualquer um de nós. Exceto pela excentricidade de se ter 80 anos ao nascer.
Como alguém muito sábio já disse: "leva-se muito tempo para tornar-se jovem..." E, em alguns casos, como no de Benjamin, muito anos se passam até que essas duas grandezas tão contraditórias - tempo e amor - possam, finalmente, se encontrar.
A princípio, pensar na idéia de rejuvenecer com o passar dos anos parece bastante sedutor.
Só que a gente esquece que o grande lance não é mudar a direção do tempo. Mas, controlar sua intensidade. E talvez seja mais simples do que parece.
Como a gente faz isso? Não sei.
Para o protagonista, algumas pessoas são artistas, outras são atingidas por raios e outras, para experimentar toda a intensidade da vida, simplesmente, dançam.

O Curioso Caso de Benjamin Button - Assisti em 20 de janeiro de 2009.
(The Curious Case of Benjamin Button , EUA 2008 / Brasil 2009 - 166 min)

Por que esse diário?

Desde muito cedo as palavras povoaram minha vida.
Do primeiro sorriso, às pequenas sílabas que aos poucos tomaram significado nos infinitos monólogos que travei ainda bebê.
Numa casa cercada de tantas conversas cruzadas, as histórias, de um certa forma, me aproximaram da família tão distante deixada para trás junto aos terreiros repletos de abacaxis e pés de mangas majestosos de um Nordeste tão mágico quanto a Macondo de Garcia Márquez. Elas construíram minha identidade.
Os apelidos dos parentes, as narrativas das aventuras vividas na chegada à cidade grande, as histórias fantásticas de meu avô nas terras indígenas, os encontros e desencontros que resultaram no casamento dos meus pais.
Tudo. Tudo sempre foi leitura. E o mundo estava ali. Para ser aberto. Lido e sentido.
Foi entao que meus irmãos mais velhos descobriram outras letras na escola.
E eu, sedenta por todas as possibilidades que se abriam a partir dessa aventura vivida por eles, percebi que além da magia experimentada pela minha própria família, havia muitos outros mundos possíveis e impossíveis por dentro dos quais eu poderia viajar.
Nas fábulas e parábolas narradas por minha mãe antes de dormir, aos livros sempre recebidos de presente nas datas especiais eu me encontrei e me perdi tantas vezes...
Pouco a pouco a leitura foi se transpondo para o meu mundo. E as conversas sobre personagens conhecidos, passaram a ser também sobre a fantasia experimentada nos livros, jornais e revistas comprados por meu pai, nos romances lidos por minha mãe e minhas tias, nos quadrinhos docemente saboreados por meu irmão, nas leituras obrigatórias da escola sempre tão penosas para minha irmã. Tudo era experimentado. Fundava-se ali uma comunidade de leitores.
Hoje, quando parte do meu trabalho é construir pontes para que tantas outras pessoas possam compartilhar suas impressões sobre as palavras, as imagens e os sons que as provocam, surge a idéia desse diário.
Sim, porque agora as histórias - mais do que nunca - são parte da minha vida. Do meu mundo.
Elas dizem muito do que sou. Daquilo que sinto e da forma como vivo a experiência de ser humana.
E aqui, nesse espaço, quero dividir com vocês, leitores amigos e desconhecidos, minhas aventuras sobre os livros, filmes e imagens com os quais conviverei a partir de hoje.
Nada do que for dito aqui será definitivo. Porque as leituras mudam sempre. E os leitores também.
Aí reside a magia das histórias. Os dramas, as experiências humanas quase sempre são atemporais e também mutantes. Algumas vezes, fascinantes. Outras, ridículas. E por isso mesmo, cheias de vida.
Proponho que experimentemos um pouco disso juntos.
Sinta-se convidado a opinar sobre suas próprias experiências e conhecer um pouco da criação humana em suas mais variadas formas.
Enfim, seja bem-vindo ao meu diário de leituras!