sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Rua do Medo - Leonardo Cortez - CCSP até 19 de dezembro - 5a. , 6a. e sábado às 21h e domingo às 20h

Tudo era apenas uma brincadeira. 
A gente era criança. E o faz de conta acontecia em cada gesto. Nos brinquedos que fazíamos, nos jogos diversos que inventávamos.
Numa família repleta de personagens, imitá-los foi o primeiro ato. Depois, seguiu-se a paródia dos programas de TV. Momento do Jornal Nacional, pausa para informar a programação do dia. Todos descíamos caracterizados com as roupas garimpadas nos armários dos meus pais e pronto: a festa continuava.  Sim, continuava. Porque já havia começado muito antes, enquanto planejávamos a cena, definíamos os papéis e o roteiro. Tudo muito bem improvisado.
E o telejornal ficava para depois. Sempre.
O tempo correu e o jogo de criança virou paixão adolescente. Formamos uma trupe. Apaixonados por teatro e, alguns de nós, uns pelos outros.
O palco foi lugar de descobertas. 
Adolescer em cena é privilégio para poucos. Na ribalta descobrimos que podíamos ser o que quiséssemos. O papel das nossas vidas poderia ter o tamanho dos nossos sonhos. E eles eram infinitos!
Após esse ato eu, minha irmã e o caçula  saímos de cena e fomos buscar outros cenários.
Um dentre nós, no entanto, talvez tenha reconhecido ali que tudo podia ser espaço de criação, de realização e de tantas outras descobertas desde que o palco fosse sua vida. E daí, fez-se ator. 
Continuou ainda mais artista, arteiro, inventor, escritor, escultor, desenhista. Criador. De muitas criaturas. Tantas quantas sua imaginação pudesse gestar. E ela é grandiosa. Sempre foi.
Hoje é pai de dois meninos. Dois pequenos curiosos. Entusiastas da Vida. Experimentadores. Suas melhores e maiores criações. Até o momento.
Hoje é ator. Um dos melhores que conheço. E não apenas por ser meu irmão e  essa opinião estar carregada de todo o amor que sinto por ele. Mas, pelo ser humano que é. E só mesmo vivendo a vida com presença é possível atuar com verdade.
Ontem estive na estréia e encheu-me de orgulho ver a beleza do trabalho de um grupo afinado, cujas cenas pareciam um balé. Um jogo deliciosamente armado para deleite da platéia. 
Em vários momentos, meu peito encheu-me de alegria e, embora tenha contido essa vontade, permaneceu comigo o desejo de dizer a todos, com grande entusiasmo, em meio aos aplausos efusivos: "Aquele cara, aquele super ator, é MEU IRMÃO!"
E para quem quiser conferir uma parte da história aqui contada e atestar a imparcialidade dessa visão, é só passar pelo Centro Cultural São Paulo e assistir Rua do Medo. Até  19 de dezembro.
Vai lá!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Primeiras leituras. Primeiras histórias.

Ontem meu sobrinho mais velho - Arthur - descobriu que aprendeu a ler! 
Suas primeiras palavras: "Yes, you can!". 
Reconhecer - pela primeira vez - que é possível ver o mundo através de signos é sempre uma experiência linda. E poder estar perto de quem vivencia esse momento é um privilégio para poucos. Basta apenas uma distração e pronto: o salto se deu.
O instante mágico em que os sinais se organizam e aquilo que antes era impossibilidade ganha vida habita o terreno do fantástico. A partir daí passamos a ver o que não enxergávamos e o mundo ganha sentidos inimagináveis.
Penso que muitas vezes retomamos, brevemente,  esse sentimento quando lemos um livro novo. Talvez por isso estejamos sempre à procura dos textos desconhecidos. Daquelas palavras que poderão nos surpreender e revelar o que antes era invisível.
Embora carregado de magia, esse instante é sempre uma contradição: o doce susto da descoberta x o conforto do que nos é conhecido.  Ainda assim  invejo aqueles que lêem alguns autores pela primeira vez: Guimarães, Gabriel Garcia Marquez, Clarice, Saramago, Lobato... 
Jamais o sabor da descoberta será tão intenso quanto nessa primeira mirada. 
"Mire e veja", Arthur! Sim, vc pode!