sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Origem - Christopher Nolan

E se tudo não passasse de um sonho?
E se todos nós fizermos parte do desejo, da lembrança ou até mesmo da histeria de alguém?
E se isso tudo for possível, como e quando é hora  de acordar?
Mais uma vez, Christopher Nolan faz um filme daqueles que prendem o fôlego, nos deixam cheios de interrogações e com pouquíssimas respostas.
Usando o cinema para falar de sonhos, o diretor faz pura metalinguagem. Com toda tecnologia de que dispomos atualmente, na tela todos os mundos podem existir. E no universo de Nolan, há sempre muito sobre o que pensar.
Achei brilhante o modo como o filme ilustra o funcionamento da mente: esse labirinto exclusivo que criamos a partir de todas as experiências que vivemos - conscientes ou não. As defesas que nos protegem de outras realidades, as lembranças que aprisionamos em andares abandonados, os segredos que guardamos de nós mesmos, as mentiras que nos contamos...
Como um quadro de Dali, onde nada faz sentido e ao mesmo tempo tudo é pura integração, entrar na mente dos personagens do filme é uma viagem que nos faz pensar sobre nosso próprio mundo. Sobre as imagens que fizemos surgir para tornar a realidade possível.
Vivemos em um constante paradigma: Sem sonhos, tudo aqui talvez fosse muito difícil. Sem saber a verdade, só teríamos a sombra.
Há uma linha tênue que divide esses dois universos paralelos. Atravessá-la, para alguns, pode significar um salto para a loucura.
Para aqueles que se lançam em outras direções pode ser um primeiro passo em busca da liberdade, da individualidade. Um mergulho para poucos.
Para ver e rever. E sonhar.

sábado, 19 de junho de 2010

Morreu José Saramago. Autor de um dos livros que mais me surpreendeu em minha história leitora

Ontem, acordei com a notícia da morte de José Saramago. Mundialmente conhecido escritor português, vencedor de inúmeros prêmios, inclusive o Nobel da Literatura.
Levou um tempo para que eu pudesse entrar em contato com sua obra.Como um bom vinho, Saramago exige um  "paladar" leitor apurado e, talvez, uma certa dose de rebeldia para perceber as ousadias que ele fazia com nossa língua portuguesa.
Lembro-me do encontro com o livro "O ensaio sobre a cegueira" há cinco anos atrás e do impacto que me causou seu discurso tão bem construído e sua maravilhosa visão sobre as inúmeras facetas disso que chamamos ser humano. Arrisco dizer que, até hoje, pouquíssimos livros me fizeram sentir tamanha admiração. Não só pelo enredo e pela trama mas, principalmente, pela forma como as palavras foram combinadas para construir sentido. Uma verdadeira obra de arte.
Curisamente, ao saber que Saramago se foi,  não houve nenhuma nota de tristeza. Porque penso que só podemos lamentar as vidas que não foram vividas. Aquelas que foram interrompidas sem que a experiência fosse carregada de presença, entrega e intensidade.
José Saramago esteve sempre lúcido. Sempre presente. Sua voz costumava ecoar em meio as injustiças, denunciando, muitas vezes, os tantos "reis nus" que ainda teimam em disseminar suas tiranias.
Sua obra, mais do que qualquer outro legado, atesta sua grandiosa humanidade. Coisa que apenas os homens simples e atentos à experiência da vida são capazes de testemunhar.
Há pouco tempo, li uma entrevista com o autor dizendo que "não poderia ter morrido sem ter conhecido Pilar." Lembro-me o quanto essa tenra declaração de amor à sua esposa tocou-me naquele momento. Ousando parafrasear sua delicadeza,  devo dizer que "nenhum leitor deveria se permitir passar  por essa vida, sem se aventurar a  conhecer a obra de Saramago."
Boa viagem, José Saramago!