sábado, 6 de junho de 2009

Os diários de leitura

Desde o começo dessa aventura, mencionei que os diários eram uma proposta que seria incorporada ao Projeto Letras de Luz: iniciativa da qual faço parte com muito orgulho e convicção.

Entre os meses de março e abril fizemos a primeira oficina com os professores de algumas cidades de quatro estados brasileiros: São Paulo, Espírio Santo, Tocantis e Mato Grosso do Sul.

Falamos sobre propósitos e comportamentos leitores, sobre nossos gostos literários, sobre os desafios que devíamos nos impor ao longo do trabalho desse ano. 

Como todo primeiro encontro, o clima foi de encantamento mútuo e vontade de trocar idéias, de partilhar sonhos e projetos comuns. 

Confesso que fiquei bastante ansiosa por saber as impressões que as discussões que provocamos poderiam trazer. E com muita alegria pude constatar que  a segunda oficina foi um verdadeiro encontro com as histórias. As nossas, as dos livros, as dos colegas, as do mundo...Palavras povoaram nossa sala.

Começamos com os Diários de leitura. Capas cheias de criatividade e conteúdo repleto de comentários sobre as mais diversas experiências leitoras. Alguns fizeram suas próprias reflexões sobre livros  que descobriram nesses meses, como as crônicas de Rubem Braga. Outros criaram várias reflexões sobre o ato de ler, registrando-as por meio de colagens. Alguns preferiram copiar as citações, poemas, fragmentos que marcaram sua experiência leitora. Houve quem começasse listando os livros que leu, os que gostaria de ler, os autores favoritos etc. Muitos fizeram os diários das leituras feitas com os alunos. Páginas povoadas de recortes de jornal, receitas, contos, artigos, poemas. Dedicando esse momento para a leitura, descobrimos que ela está presente em todo lugar e pode ser experimentada sempre que ousarmos abrir espaço em nossas vidas para que as palavras sejam soberanas.

Discutimos sobre a importância das histórias na construção de nossas identidades. Somos aquilo que contamos.

O vídeo “Histórias” nos mostrou que povos do mundo inteiro já estiveram e estão ao redor do fogo, narrando acontecimentos fantásticos ou suas próprias epopéias diárias. E com isso, se aproximam, se aconchegam e se reconhecem humanos.

Ouvimos o “Apelo” de Dalton Trevisan nas vozes de diferentes colegas. Notamos que, embora as palavras sejam iguais e na leitura de um texto escrito prevaleça a fidelidade à forma como o autor se expressa, é em nossa entonação, em nossa relação com o texto que deixamos nossa marca para aqueles que nos ouvem.

Reconhecemos que o contar nos expõe: testa nossa memória, nos põe em contato direto com o grupo, abre-se para o gesto, para o tom coloquial e para a improvisação. Narramos e somos narrados a todo momento.

Houve também espaço para o jogo, para o riso solto. Para a palavra que ganha vida a partir da encenação. Muitos participantes experimentaram, pela primeira vez, a delícia da leitura dramática e a força do diálogo na construção de sentidos de uma cena.  Por alguns momentos, pudemos ser  Chicó, João Grilo, Padre João, o Padeiro, Major Antônio Morais, a Gorda, o Puxa, a Professora de Ciências e tantos outros personagens. Mais uma vez, o verbo foi soberano.

E notei que muitos saíram descobrindo-se contadores. Percebendo a importância de trazer de volta as narrativas. Reconhecendo a necessidade do planejamento, da escolha consciente, do preparo, da sensibilidade para estabelecer uma conexão com o grupo e resgatar a “arte de contar histórias”. Um ofício que pode ser acessado por todos aqueles que estiverem dispostos a deixar que a palavra esteja sempre presente em nossas experiências.

Mal posso esperar pelo terceiro encontro para saber sobre as histórias que foram contadas, os textos que foram lidos e as peças que foram levadas ao palco.

Com certeza, as vozes da escrita serão ouvidas muito longe... 

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Últimas leituras

Confesso que tem sido difícil atualizar esse espaço.
O ritmo da leitura nem sempre corresponde ao tempo necessário para comentar as descobertas que elas me trazem.
Por isso, optei, nesse post, por colocar a lista, seguida de brevíssimos comentários,  do que li/vi nesses dias:
Entre os muros da escola de François Bégaudeau. França, 2008.
Podia ser aqui do lado. Na escola que seu filho/seu irmão frequenta. Onde quer que seja, fica evidente que a forma que escolhemos para ensinar está em crise. E, para mim, o problema da relação professor-aluno é só um reflexo da falta de humanidade que temos experimentado em muitas outras esferas disso que chamamos de sociedade.
Faz pensar...
A questão humana de Nicolas Klotz. França, 2004.
Esse foi indicação do Val. E quando ele diz que é bom, pode conferir que vale à pena. O filme propõe uma boa reflexão sobre a eugenia, a qual condenamos tanto na história passada e que se faz tão presente no mundo corporativo dos dias de hoje. Queria poder dizer mais, mas durante a exibição tivemos que lidar com "a questão humana" de uma pessoa extremamente gripada sentada na fila de trás, que nos "presenteou" com frequentes fungadas durante os quase 180 minutos de exibição. Ninguém merece.
Meu nome é vermelho de Orhan Pamuk. Cia das Letras, 2004.
Esse eu li nas férias de janeiro. Há tempos queria postar um comentário aqui. São 19 narradores nos contando uma série de assassinatos. Em um dos capítulos há uma das descrições mais lindas que já li sobre o momento da morte. Sim, a passagem para "o outro lado" pode ser bonita e suave. Coisas que só mesmo a boa literatura pode fazer.
Watchman. Alan Moore e David Gibbons. Conrad, 1985.
Depois de ver o filme, me emprestaram os quadrinhos. Tive o privilégio de ler uma edição da época em que foi lançado. Páginas amareladas, algumas folhas se soltando...retratos de um outro tempo. Li devagar, saboreando cada página. Com medo que acabasse, de tão bom que estava. Não é à toa que foi/é tão cultuado até hoje. Vale à pena resgatar essa obra.
Toda casa precisa de varanda. Rina Frank. Record, 2009.
Esse foi um dos presentes que ganhei de aniversário. Trata-se de uma autobiografia que narra o cotidiano de uma família romena vivendo em Israel. Mais um retrato da cultura oriental, a qual tem despertado tanto nossa curiosidade nos últimos anos. Coincidentemente, nessa última semana, ao visitar alguns apartamentos, pensei que o título da obra é mesmo bastante pertinente.  Toda casa precisa ser um refúgio, sem deixar de se manter aberta para o mundo. Sim, toda casa precisa de varanda para que os horizontes sejam maiores e a vida possa encontrar passagem. Sempre.