terça-feira, 5 de julho de 2011

Necessidade

Construo o que sou por meio das palavras.
Não concebo nada que tenha vida, que antes, muito antes não tenha sido verbo. Sonho. Projeto. Palavra e Silêncio.
E mesmo quando não há nada a escutar, o silêncio conta.
Porque é preciso narrar. Sempre. Para saber e fazer quem somos e o que virá.
Em breve, novas postagens por aqui.

sábado, 5 de março de 2011

Quando a literatura nos salva...

Já ouvi dizer que quem lê demais está fugindo da realidade. E talvez seja isso mesmo.
Antônio Cândido disse uma vez que é preciso um pouco de fantasia para nos manter sãos. Por isso, a literatura deveria ser um dos direitos fundamentais do ser humano.
Muitas vezes já me vi procurando nas palavras impressas aquilo que me faltava. E sempre fui recompensada. Ou porque tenha me reconhecido nos dramas vividos pelos personagens ou porque tenha encontrado respostas para perguntas que sequer haviam sido feitas.
Em alguns casos, a leitura não me trouxe nenhuma epifania. Apenas fez-me passar o tempo e desligar do mundo quando esse me pareceu duro e real demais para ser suportado com lucidez. 
Uma boa experiência nesse sentido ocorreu recentemente com a descoberta da Trilogia Milennium do sueco Stieg Larsson. Desde o contato com o primeiro volume da série (Os homens que não amavam as mulheres), o mergulho no universo sombrio e inteligente do autor revelou-se uma aventura da qual foi praticamente impossível fugir sem avançar de um livro para outro.
Além de personagens interessantíssimos, como em um bom suspense, a trama revela-se aos poucos e surpreende-nos a cada página com novas perguntas que vão sendo respondidas sem, no entanto, revelar o mistério principal.
Na última semana, fui salva pelo segundo volume da série (A menina que brincava com fogo). Devorei-o em apenas três dias. Precisava de um outro lugar para visitar enquanto "nesse lado de cá"a vida vinha sendo feita de espera, angústia e medo. Muito medo. 
Recentemente, ouvi dizer que há uma tendência grande a escolhermos o sofrimento. Mesmo quando ele apenas faz parte da nossa fantasia. E estamos tão viciados nesse movimento que o caminho da serenidade, da paz e da alegria parece uma ofensa à infelicidade coletiva.
Talvez, a literatura possa nos ajudar a subverter essa ordem.
No caso do mergulho nessa obra, foi um prazer imenso transferir a dor e angústia para o mundo da fantasia e, enquanto isso, renovar na "vida real" a fé, a crença nas forças que desconhecemos e a esperança nos milagres que acontecem quando o amor predomina.
Para ler e não deixar até o último ponto final.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Receitas

Tem gente que vive dando receitas...
Algumas pessoas, inclusive, acreditam que há sempre um modo de preparar-se para as coisas que virão.
Ingredientes para a felicidade, para o amor fácil, para ter sucesso ou um corpo digno de capa de revista. Parece, dizem, que é só misturar um pouco disso e daquilo e pronto: servir-se à vontade.
Há aqueles que insistem em afirmar que a diferença está no tempero. Tanto faz o que vai ao prato, mas esses parecem concordar que uma vida sem sal é muito sem graça.
Muitos têm certeza que onde não há doce, falta afeto. E que sem a doçura desse sabor, tudo talvez pareça amargo demais.
E tem ainda o azedo. Aquele amarrado na boca que aumenta a saliva e nos faz engolir mesmo as coisas que não nos parecem tão agradáveis ao paladar.Como remédios, alguns desses sabores são males necessários à cura.
Já ouvi dizer que se a vida tivesse receita, tudo seria mais fácil.
Mas, será mesmo que seguir instruções garante um resultado delicioso? Ou há tempos de preparo e espera, toques de sabor e ousadia que não foram registrados e que, talvez, exatamente por isso são responsáveis pelo sucesso do prato?
Sei que cozinheiros são como alquimistas. E que alguns chefs inventam maravilhas apenas com o que dispõem na geladeira e na dispensa. O que para alguns talvez pareça pouco, para essas pessoas, é o começo de tudo.
Sei também, pelo pouco do que provei até agora, que ter ou não ter receitas a seguir não parece fazer muita diferença. Porque pior do que a surpresa de gostos inesperados é passar o tempo que temos apenas folheando as páginas do livro, admirando receitas que nunca faremos. Pior do que experiências que passaram do ponto ou que ainda nos parecem cruas é uma cozinha de propaganda de revista, que nunca foi tocada por ninguém.
O fato é que doces, salgados, amargos, azedos, todos os sabores são bem-vindos.  O que importa mesmo, é misturar um pouco de tudo e sempre, sempre mesmo, passar o dedo na vida.

Que nos seja servido 2011!!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Carta aos leitores com os quais convivi nesses quatro anos de Projeto Letras de Luz


Compartilhar uma paixão é sempre uma experiência maravilhosa.

Primeiro, vem o desejo. Sim. Tudo começa com a vontade de ver, de saber o que é, de estar junto. E, foi por causa dessa intenção que vocês chegaram até essa oficina.
Depois, vem o momento de trocar, onde cada um apresenta seus gestos, suas perguntas, seus sonhos. No nosso caso, os gostos foram as palavras. Sim! As palavras!
Durante esses cinco encontros, procurei seduzi-los para que se encantassem com a maravilha que é ler e se permitir o prazer de conhecer e se reconhecer em outras vozes, nas nossas conversas apreciativas, nos diferentes gêneros que experimentamos e nos mais variados autores com os quais convivemos.
Mas, todos nós sabemos, que as paixões são efêmeras, ou seja, elas não duram. E que, para que se transformem em amor, é preciso cultivar o sentimento.
E é esse o meu sincero desejo: que com ou sem Letras de Luz, vocês, nós possamos cultivar a necessidade de estar em contato permanente com a literatura. Não somente porque somos educadores. Mas, porque como seres humanos precisamos lutar sempre por nosso direito à fantasia e pela necessidade de alimentarmos nossos espíritos com coisas boas.
Espero, sinceramente, que a paixão despertada ou renovada nessas oficinas possa tornar-se amor. E que, como todo verdadeiro amor, transforme-se em hábito. Para toda a vida.
Denise Guilherme da Silva.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Rua do Medo - Leonardo Cortez - CCSP até 19 de dezembro - 5a. , 6a. e sábado às 21h e domingo às 20h

Tudo era apenas uma brincadeira. 
A gente era criança. E o faz de conta acontecia em cada gesto. Nos brinquedos que fazíamos, nos jogos diversos que inventávamos.
Numa família repleta de personagens, imitá-los foi o primeiro ato. Depois, seguiu-se a paródia dos programas de TV. Momento do Jornal Nacional, pausa para informar a programação do dia. Todos descíamos caracterizados com as roupas garimpadas nos armários dos meus pais e pronto: a festa continuava.  Sim, continuava. Porque já havia começado muito antes, enquanto planejávamos a cena, definíamos os papéis e o roteiro. Tudo muito bem improvisado.
E o telejornal ficava para depois. Sempre.
O tempo correu e o jogo de criança virou paixão adolescente. Formamos uma trupe. Apaixonados por teatro e, alguns de nós, uns pelos outros.
O palco foi lugar de descobertas. 
Adolescer em cena é privilégio para poucos. Na ribalta descobrimos que podíamos ser o que quiséssemos. O papel das nossas vidas poderia ter o tamanho dos nossos sonhos. E eles eram infinitos!
Após esse ato eu, minha irmã e o caçula  saímos de cena e fomos buscar outros cenários.
Um dentre nós, no entanto, talvez tenha reconhecido ali que tudo podia ser espaço de criação, de realização e de tantas outras descobertas desde que o palco fosse sua vida. E daí, fez-se ator. 
Continuou ainda mais artista, arteiro, inventor, escritor, escultor, desenhista. Criador. De muitas criaturas. Tantas quantas sua imaginação pudesse gestar. E ela é grandiosa. Sempre foi.
Hoje é pai de dois meninos. Dois pequenos curiosos. Entusiastas da Vida. Experimentadores. Suas melhores e maiores criações. Até o momento.
Hoje é ator. Um dos melhores que conheço. E não apenas por ser meu irmão e  essa opinião estar carregada de todo o amor que sinto por ele. Mas, pelo ser humano que é. E só mesmo vivendo a vida com presença é possível atuar com verdade.
Ontem estive na estréia e encheu-me de orgulho ver a beleza do trabalho de um grupo afinado, cujas cenas pareciam um balé. Um jogo deliciosamente armado para deleite da platéia. 
Em vários momentos, meu peito encheu-me de alegria e, embora tenha contido essa vontade, permaneceu comigo o desejo de dizer a todos, com grande entusiasmo, em meio aos aplausos efusivos: "Aquele cara, aquele super ator, é MEU IRMÃO!"
E para quem quiser conferir uma parte da história aqui contada e atestar a imparcialidade dessa visão, é só passar pelo Centro Cultural São Paulo e assistir Rua do Medo. Até  19 de dezembro.
Vai lá!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Primeiras leituras. Primeiras histórias.

Ontem meu sobrinho mais velho - Arthur - descobriu que aprendeu a ler! 
Suas primeiras palavras: "Yes, you can!". 
Reconhecer - pela primeira vez - que é possível ver o mundo através de signos é sempre uma experiência linda. E poder estar perto de quem vivencia esse momento é um privilégio para poucos. Basta apenas uma distração e pronto: o salto se deu.
O instante mágico em que os sinais se organizam e aquilo que antes era impossibilidade ganha vida habita o terreno do fantástico. A partir daí passamos a ver o que não enxergávamos e o mundo ganha sentidos inimagináveis.
Penso que muitas vezes retomamos, brevemente,  esse sentimento quando lemos um livro novo. Talvez por isso estejamos sempre à procura dos textos desconhecidos. Daquelas palavras que poderão nos surpreender e revelar o que antes era invisível.
Embora carregado de magia, esse instante é sempre uma contradição: o doce susto da descoberta x o conforto do que nos é conhecido.  Ainda assim  invejo aqueles que lêem alguns autores pela primeira vez: Guimarães, Gabriel Garcia Marquez, Clarice, Saramago, Lobato... 
Jamais o sabor da descoberta será tão intenso quanto nessa primeira mirada. 
"Mire e veja", Arthur! Sim, vc pode!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dzi Croquettes - Tatiana Issa e Raphael Alvarez - 2009 - Brasil


É certo que desde sempre se diz que brasileiro não tem memória. E disso a gente não esquece.

Saí do cinema nesse fim de semana pensando sobre esse clichê...
Não cheguei a nenhuma grande conclusão mas, penso que temos memória, sim. Ela é apenas seletiva. Cabe-nos, no entanto, perguntar: quem decide o que permanece guardado conosco?
Que Chico, Caetano e Gil estiveram em festivais na década de 60, todos sabem. Que esses poetas maravilhosos fizeram de suas músicas verdadeiros atos de resistência à ditadura, também já ouvimos falar.
E o que dizer de um grupo de 13 homens contemporâneos ao regime que resolveram também fazer da arte um tributo à vida? Aliás, "Nem homem. Nem mulher. Gente." Pessoas que com seus corpos e mentes lindos, ágeis e irreverentes fizeram do palco espaço de catarse, inquietação e libertação?
Esses foram os Dzi Croquettes. 
Mesmo que nunca tenhamos ouvido falar esse nome, as referências às criações desse grupo estão presentes no trabalho de muitos artistas contemporâneos que admiramos. Desde o visual escandaloso (vejam se a imagem não lembra algum show do Ney) até as expressões coloquiais que empregamos com humor em nosso cotidiano ("Tá boa, santa?"), o filme revela o quanto uma obra de arte, quando genuína, permanece independentemente das resistências que encontra em seu tempo.
Em uma sociedade que procura sempre nos enquadrar em determinados papéis, os Dzi Croquettes não se encaixaram em nenhuma definição. Pelo contrário: foram (e ainda são!) pura ousadia. Revelando as múltiplas possibilidades da sexualidade humana, mostrando que podemos ir além do que pode ser estabelecido como feminino e masculino e sendo essencialmente verdadeiros com seus desejos, eles arrastaram multidões aos seus espetáculos, primeiramente no Rio de Janeiro, depois em São Paulo e daí para o mundo!
Impossível acompanhar a história narrada no filme sem nos questionarmos sobre as escolhas que fazemos e o quanto de nossa verdade pode ser revelada nas coisas que criamos. 
Quanto vale buscar aquilo que somos sem nos atermos aos modelos estabelecidos como únicos sonhos possíveis? 
Desejamos nossos desejos ou aqueles que nos foram impostos por anos de uma vida social cada vez mais engessada e limitadora da plenitude humana?
O que de fato queremos? 
A trajetória dos Dzi Croquettes não nos dá essas respostas. Talvez porque eles, rindo, cantando e dançando no palco e na vida estivessem apenas interessados em descobrir suas próprias perguntas e em eternizar-se, quem sabe, virando PURPURINAS...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Origem - Christopher Nolan

E se tudo não passasse de um sonho?
E se todos nós fizermos parte do desejo, da lembrança ou até mesmo da histeria de alguém?
E se isso tudo for possível, como e quando é hora  de acordar?
Mais uma vez, Christopher Nolan faz um filme daqueles que prendem o fôlego, nos deixam cheios de interrogações e com pouquíssimas respostas.
Usando o cinema para falar de sonhos, o diretor faz pura metalinguagem. Com toda tecnologia de que dispomos atualmente, na tela todos os mundos podem existir. E no universo de Nolan, há sempre muito sobre o que pensar.
Achei brilhante o modo como o filme ilustra o funcionamento da mente: esse labirinto exclusivo que criamos a partir de todas as experiências que vivemos - conscientes ou não. As defesas que nos protegem de outras realidades, as lembranças que aprisionamos em andares abandonados, os segredos que guardamos de nós mesmos, as mentiras que nos contamos...
Como um quadro de Dali, onde nada faz sentido e ao mesmo tempo tudo é pura integração, entrar na mente dos personagens do filme é uma viagem que nos faz pensar sobre nosso próprio mundo. Sobre as imagens que fizemos surgir para tornar a realidade possível.
Vivemos em um constante paradigma: Sem sonhos, tudo aqui talvez fosse muito difícil. Sem saber a verdade, só teríamos a sombra.
Há uma linha tênue que divide esses dois universos paralelos. Atravessá-la, para alguns, pode significar um salto para a loucura.
Para aqueles que se lançam em outras direções pode ser um primeiro passo em busca da liberdade, da individualidade. Um mergulho para poucos.
Para ver e rever. E sonhar.

sábado, 19 de junho de 2010

Morreu José Saramago. Autor de um dos livros que mais me surpreendeu em minha história leitora

Ontem, acordei com a notícia da morte de José Saramago. Mundialmente conhecido escritor português, vencedor de inúmeros prêmios, inclusive o Nobel da Literatura.
Levou um tempo para que eu pudesse entrar em contato com sua obra.Como um bom vinho, Saramago exige um  "paladar" leitor apurado e, talvez, uma certa dose de rebeldia para perceber as ousadias que ele fazia com nossa língua portuguesa.
Lembro-me do encontro com o livro "O ensaio sobre a cegueira" há cinco anos atrás e do impacto que me causou seu discurso tão bem construído e sua maravilhosa visão sobre as inúmeras facetas disso que chamamos ser humano. Arrisco dizer que, até hoje, pouquíssimos livros me fizeram sentir tamanha admiração. Não só pelo enredo e pela trama mas, principalmente, pela forma como as palavras foram combinadas para construir sentido. Uma verdadeira obra de arte.
Curisamente, ao saber que Saramago se foi,  não houve nenhuma nota de tristeza. Porque penso que só podemos lamentar as vidas que não foram vividas. Aquelas que foram interrompidas sem que a experiência fosse carregada de presença, entrega e intensidade.
José Saramago esteve sempre lúcido. Sempre presente. Sua voz costumava ecoar em meio as injustiças, denunciando, muitas vezes, os tantos "reis nus" que ainda teimam em disseminar suas tiranias.
Sua obra, mais do que qualquer outro legado, atesta sua grandiosa humanidade. Coisa que apenas os homens simples e atentos à experiência da vida são capazes de testemunhar.
Há pouco tempo, li uma entrevista com o autor dizendo que "não poderia ter morrido sem ter conhecido Pilar." Lembro-me o quanto essa tenra declaração de amor à sua esposa tocou-me naquele momento. Ousando parafrasear sua delicadeza,  devo dizer que "nenhum leitor deveria se permitir passar  por essa vida, sem se aventurar a  conhecer a obra de Saramago."
Boa viagem, José Saramago!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A sociedade literária e a torta de casca de batata - Mary Ann Shaffer e Annie Barrows


O quanto a palavra pode nos tornar ainda mais próximos?
Que mistérios levam os livros a criar comunidades e inspirar sonhos comuns?
Penso e sinto, desde sempre, que nos fazemos a partir de nossas histórias e de outras tantas narrativas que atravessam nossa passagem por essa estrada a qual chamamos de vida.
Já quando menina, observando o contato de meus pais com livros e jornais, nas conversas ao redor da mesa antes, durante e depois das refeições, nas histórias lidas antes de dormir... em todos os momentos, as palavras estiveram construindo sentido e dizendo-nos o que somos, ajudando-nos a responder ao que viéramos.
Sendo assim, pareceu-me natural que a literatura fosse um modo maravilhoso de criarmos sentido para nossas experiências. De gerarmos outras possibilidades de vida. De nos fazermos próximos a partir de nossa singularidade e daquilo que temos em comum.
No livro "A sociedade literária e a torta de casca de batata" são os livros que tornam-se o motivo para que, em uma ilha invadida pelos alemães durante a Guerra, alguns habitantes possam encontrar alento nas palavras de outros e dar voz aos sentimentos a partir dos personagens de outras histórias.
Narrativas atravessam o mar e, escritas em uma capa de um livro, dão início a uma deliciosa troca de cartas que, juntas, contam diferentes visões sobre as contradições entre  experiência limite do auge da violência humana e a capacidade que possuímos de sermos generosos e solidários ao sofrimento dos outros.
Quando a guerra nos rouba parte do que temos de mais precioso, é preciso encontrar sentido para estar junto. Para reconstruir. Para re-significar.
Quando a vida se apresenta como um desafio,  uma alternativa possível pode ser buscar aquilo que nos aproxima. E as palavras, ah!, elas podem generosamente nos mostrar novos caminhos.
Estejamos abertos.
Elas nos pedem passagem!
Sempre.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Comer, rezar e amar - Elisabeth Gilbert - Editora Objetiva

Dizem que não escolhemos os livros mas, somos escolhidos por eles.
Esse é mais um caso em que isso acontece comigo. Na verdade, dessa vez, quem o escolheu por mim foi minha mãe. Presente de aniversário.
Sucesso de vendas há algum tempo, em breve estará nas telas do cinema com Julia Roberts no papel da protagonista. O livro narra a história real de  Liz Gilbert: americana, divorciada e escritora que após uma grande crise pessoal resolve viajar o mundo e passar quatro meses exercitando com intensidade cada um dos verbos do título.
Parece bem simples. E é mesmo. Como a vida de qualquer um de nós: cheia de clichês.
Num tempo em que muitos vivem no automático, não é raro nos sentirmos vazios. Termos medo do que é novo. Daquilo que não conhecemos.
Há sempre um apego muito grande às coisas que já não fazem mais parte da nossa história, mesmo quando são elas que nos fazem mal. E, se não estivermos atentos, perdemos nossa ligação com tudo o que realmente importa.
Como Liz, penso que precisamos cuidar daquilo que comemos. Do que deixamos que seja parte do nosso corpo. Do que nos alimenta. Ou estaremos fadados há sentir o gosto amargo daquilo que não conseguimos digerir, dos sapos que engolimos e de tudo o que consumimos sem consciência. Sem decisão. E, um belo dia, acordaremos e nos daremos conta de que estamos cheios do que não nos sustenta e descobriremos que por estarmos ausentes de nós mesmos, fomos vítimas de uma mentira. Muitas vezes, uma doce mentira contada por nós mesmos.
No caso da personagem do livro essa tomada de consciência se dá em meio a um casamento fracassado. Para outros é preciso um câncer ou qualquer doença terminal. O corpo fala. E às vezes, grita. Urra.
Quando se quer o novo, é preciso abandonar o velho. Limpar o pó das mágoas. Reconhecer os movimentos que nos fazem voltar à antigos padrões. É preciso ficar sempre alerta. Atento e forte. Mantendo-se conectado com aquilo que realmente importa. Com  presença e integridade em tudo o que fazemos. Rezando. Meditando. Buscando nossa essência.
Pouco importa o caminho escolhido. Imprescindível é que ele seja feito com lucidez. Com consciência. Perseguindo arduamente o que de fato somos. O que se esconde por baixo das couraças, por traz das nossas máscaras e das fantasias que criamos para sermos "aceitos", para sobrevivermos às nossas impressões sobre o mundo que nos cerca.
Pode ser em um ashram na Índia. Ou em um lugar bem próximo e, paradoxalmente, muito mais difícil de se ir: dentro de nós mesmos.
Por fim, é preciso amar. Não da forma romântica e idealizada que nos faz consumir cafés da manhã de comerciais de margarina. Nem da forma egoísta em que se baseia a pseudo auto-estima que ajuda a vender milhões em cosméticos e auto-ajuda.
Uma vez escolhendo o que queremos trazer para dentro de nós, o que de fato nos alimenta, inevitavelmente, nos ligamos ao que realmente importa. O encontro pode nos mostrar algo que não queremos enxergar. Uma verdade dura de se ver. Mas,  se tivermos coragem e lucidez podemos aprender a aceitar, acolher, amar, compreender o que somos e quem sabe encontraremos o tão desejado equilíbrio?
Como a autora-personagem, fico feliz em saber que todos nos sentimos perdidos. É um alívio não me obrigar a ser dona de nenhuma verdade. Por que as verdades são muitas. E querer enquadrar a todos em nosso modelo de felicidade é frustração na certa. O caminho de cada um é único.
Minha busca ainda não acabou. Diferentemente de Liz Gilbert, ainda não sei onde isso vai me levar.
Mas, há uma esperança aqui dentro de que, talvez os momentos de crise possam me trazer para mais perto de mim mesma.  Pondo-me em contato com o mundo e com os outros. E, quem sabe, aproximando-me cada vez mais do que realmente pode ser a VIDA.



terça-feira, 2 de março de 2010

Grande sertão: Veredas - Guimarães Rosa

"Nonada".
Como se diz tanto, com tão pouco?
Há imagens que ficam impressas na memória, como se fizessem parte da nossa história, mesmo que nunca tenhamos vivido a experiência.
Alguns chamarão isso de inconsciente coletivo. Prefiro acreditar que existem certos retratos que espelham a condição humana com tamanha verdade que logo nos identificamos e reconhecemos-nos como parte da cena.
É assim com a obra de Guimarães. Mesmo quem nunca foi ao sertão, sente a aridez do combate, a solidão das veredas e a tensão pela espera da morte sempre anunciada.
Mesmo quem nunca amou sem conflito, experimenta a contradição dos sentimentos entre Tatarana e Diadorim.
Foram muitas páginas de conversa com Guimarães por meio de Riobaldo, falando coisas sobre a vida com tamanha simplicidade, intensidade e beleza... Uma verdadeira obra de arte esculpida em palavras.
Para mim, é essa a matéria da qual são feitos os grandes escritores. Não exatamente o que eles dizem mas, a forma como são capazes de traduzir a condição humana em palavras. E por saberem burilar o verbo com maestria, nos envolvemos na trama, nos detalhes e comungamos as venturas e desventuras experimentadas pelas personagens.
Surpreendi-me, com a tristeza, a dor e a intensidade com a qual senti a descoberta de um amor possível que durante toda uma vida pareceu improvável. Chorei a morte de Diadorim.
Numa sexta-feira de sol, sentada na cama, vi-me como Bastian de "A história sem fim", lamentando o ponto final definitivo dessa narrativa.
Prazeres que só quem partilha a experiência de amar os livros e tentar ser mais humano a partir da experiência narrada por outros é capaz de sentir.
Para ler e reler. Para perder e encontrar.
Para férias de janeiro, para os tempos de sertão. Para pausas nas veredas da vida.
Guimarães, sempre.

"O céu vem abaixando. Narrei ao senhor.
No que narrei, o senhor até ache mais do que eu, a minha verdade.
Fim que foi. Aqui a estória se acabou.
Aqui, a estória acabada.
Aqui a estória acaba."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Abraços partidos - Pedro Almodóvar

Nesse fim de semana dei-me de presente o novo filme do Almdóvar: "Abraços partidos".
A começar pelo título, o longa é pura poesia.
Emocionou-me o balé de imagens da fotografia maravilhosa: sapatos que "falam", pernas que dialogam, braços que quase se tocam.
Chorei muito durante a exibição.
Não. Não é triste o filme. Mas, a forma como se pode dizer tanto a partir das imagens tocou-me profundamente. O uso das cores marcantes, os cortes precisos, as cenas em que se "vê" o toque sutil do personagem que enxerga com as mãos...tudo é um convite a sentir a beleza do amor, dos encontros, dos abraços e das partidas.
Penélope Cruz - cercada por excelente atores - está maravilhosa. Confere verdade a uma personagem que tinha tudo para ser um clichê. Desenha nuances, medos, conflitos, vontades e contra-vontades. Além de colocar sua beleza estonteante e camaleônica à serviço da humanidade de Madalena.
Por fim, pensei muito sobre a metáfora do título. Em várias cenas, há braços que quase se tocam e abraços que se desfazem de maneira bruta. Alguns pelo medo. Outros, pelas circustâncias.
No entanto, há aqueles que de fato arriscam o envolvimento, o salto, a proximidade entre a cadência das batidas do coração, o toque das mãos e dos corpos que se cruzam. Para esses, tudo é possível. Até mesmo amar aquilo que jamais poderão possuir.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Literaterapia


Há cerca de dois anos perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida: minha terapeuta Olga. Curiosamente, "apaguei" da mente a data. Não lembro o dia exato. Sei apenas que foi em uma quinta-feira chuvosa de dezembro que recebi a notícia de sua morte solitária e surpreendente.
Nunca havia experimentado uma dor desse tamanho.
Durante 14 anos, entrar naquele consultório numa ruazinha arborizada da Santa Cecília foi um espaço de encontro. O que via semanalmente naqueles 50 minutos (às vezes intermináveis, noutras, fugazes) nem sempre foi o que gostaria de enxergar. Era eu mesma, em minhas múltiplas faces. Algumas surpreendentes. Outras sombrias. Todas minhas. Inegavelmente.
Entre risos, choros e longas conversas ou monólogos, ela esteve ali: presença constante. Espelho. Interrogação. Abraço. Repreensão.
Olga levou consigo uma parte da minha história que ninguém mais saberá. Com a sua morte percebi o quanto aprendi sobre mim e, curiosamente reconheci minha ignorância sobre ela.
Quem era aquela mulher? Quais eram os seus interesses? Que
impressões construiu a meu respeito? Nunca soube muito sobre isso.
Cercada por seus parentes e alguns poucos amigos e pacientes, ao me despedir de seu corpo, descobri que uma das pessoas que mais me conheceu foi, em grande parte, estranha para mim. Um curioso paradoxo do processo terapêutico: a distância criando proximidade.
Vez por outra sinto muito a sua falta.
Sei que essa ausência será permanente. Em alguns momentos desejo voltar aquele sofá e encontrar seus ouvidos, seu olhar, suas perguntas perspicazes, sua lucidez em meio as minhas crises.
Mas, esse foi um outro tempo. E agora, como ela mesma me disse tantas vezes, chegou o tempo de buscar meu "terapeuta interior".
Nesse ano, reencontrei-a nas páginas da literatura. Na obra do escritor terapeuta ou vice-versa Irvin Yalon.
Os livros têm dessas coisas. Eles nos trazem de volta aqueles que já foram, mundos que não mais existem.
As palavras têm o poder de prender o tempo. Suspender. Eternizar.
Comecei com "Mentiras no divã" e, pela primeira vez, estive do outro lado do sofá daquele consultório. Vi-me por meio dos olhos de quem analisa. De quem reconhece a fragilidade do outro e estende a mão.
Penso que terapeutas fazem isso. Constroem pontes para nossos múltiplos lados. Para que possamos reconhecer a nossa diversidade.
Como descobrem a matéria de que são feitos esses caminhos? Não sei.
Através da ficção o autor nos dá algumas pistas sobre isso.
Nessa semana terminei outro de seus livros: "Mamãe e o sentido da vida". Nesse, algumas histórias são reais e outras não. Em todas, Olga - nas palavras de Irvin - esteva lá. Desvelando sonhos e falando comigo sobre o grande momento final: "a morte" - tema da maior parte dos contos da obra.
Para Irvin, nossa sociedade criou mecanismos que nos afastam do sofrimento, da velhice, da passagem dos anos. Isolamos nossos doentes, mantemos nossos idosos distantes, usamos cremes e cirurgias para negar que o tempo que se esvai.
Por mais que nos esforcemos para negar essa verdade, há grandes perguntas que nunca terão resposta. Não sabemos o que existe antes de nascermos nem o que virá depois de partirmos. Essas são grandes vazios que precedem e encerram nossa existência ou nossa consciência.
Somos finitos. Essa certeza pode dar outro sentido às nossas experiências.
Estarmos próximos dessas questões, segundo o autor, inegavelmente nos aproxima da vida.
E é por me fazer pensar sobre esses dilemas e, de certa forma, voltar meus olhos para temas que ainda não ousei enfrentar, que continuarei fazendo memória dos encontros com Olga nas páginas de Yalon.



domingo, 1 de novembro de 2009

Minhas aventuras pela literatura latino-americana


Até bem pouco tempo atrás, meu conhecimento da literatura latino-americana resumia-se a Gabriel Garcia Márquez. Desde que fui apresentada aos maravilhosos "Cem anos de solidão", fiz como todos os apaixonados: corri atrás de mais, mais do mesmo. Li várias de seus livros. Emprestei alguns, comprei outros. 
Recentemente, em uma semana de férias, retomei meu contato com a delíciosa literatura produzida aqui: do lado de baixo do Equador. 
Primeiro com o romance "A trégua" de Mario Benedetti. Segundo ele, o amor pode ser uma trégua. Impossível não concordar. Penso que o amor é o que, de fato, nos dá a sensação de estarmos vivos. E, geralmente, ele nos surge quando menos esperamos. Numa conversa despretenciosa. Num sorriso que se encontra. Num olhar que se conecta. Em duas ou mais vidas que se encontram. E nos instantes em que dura o amor, é sempre, sempre mesmo,  um "descanso na loucura 
do mundo".
Numa dessas tardes chuvosas de outubro, caminhando por um lugar maravilhoso para onde fui nessas férias, a tempestade levou-me até "Tia Júlia e o escrivinhador" de Mário Vargas Llosa. Uma edição antiga, do "Círculo do livro", fez-me lembrar de uma tia que perdi recentemente e que foi, em parte, responsável por esse prazer que ainda hoje encontro na leitura. Era assinante do Círculo e sempre estava lendo alguma coisa. 
Alterando outra improvável história de amor às rocambolescas novelas de rádio, o autor constrói um romance de iniciação: um jovem que se apaixona por uma mulher mais velha. Passei algumas noites devorando o livro, com medo de que as férias acabassem antes das páginas. Como alguns amores, que queremos sorver com toda intensidade, sabendo que o desejo, a vontade e o prazer da convivência podem um dia acabar. E, às vezes, acabam.
Há muito tempo tenho esperado pela leitura de "As travessuras da menina má". E agora, em tempos de internet, pude "baixar" o livro e ler em meu mais novo brinquedo: um livro digital.
Lindo. Mais uma narrativa belíssima. 
Travessa, cruel, engraçada, corajosa, sofredora, intensa. A menina do título vira do avesso a vida de um homem metódico, para quem a vida podia ser totalmente previsível. Acabei ontem, pensando que alguns amores, quando não nos destróem, certamente tornam-se matéria para deliciosos romances. Como esse.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Mais estranho que a ficção - Marc Foster (2006)

O que realmente importaria se hoje fosse seu  último dia?
Sei que o tema pode parecer clichê. No entanto, as questões previsíveis, muitas vezes, rendem respostas inesperadas. E com um roteiro e um elenco de primeira, há muito o que dizer.
Às vezes, me deparo com essa pergunta e vejo que há tantas coisas que espero realizar antes do momento final...
Há muito desejo pela vida aqui dentro. 
Ainda assim,  a repetição do cotidiano me dá a rara ilusão de que possuo algum controle sobre os próximos acontecimentos que virão. E tudo parece certo. Previsível. Meticulosamente contado, como os números que cercam a vida de Harold.
No entanto, o Universo já provou o quanto essas certezas podem ser um engodo. 
E nem sempre são as grandes catástrofes que mudam o curso da história. Não da minha.
Às vezes, é preciso apenas um simples objeto - como um relógio, uma mudança em um pequeno detalhe,  um encontro em um supermercado, um livro esquecido sobre a mesa, um atraso que nos faz escolher outro caminho...para que percebamos a singularidade da vida.
Muitas vezes, basta apenas que o co-autor  altere uma variável e nada mais será como antes.
Acho que é disso que o filme trata: das pequenas coisas que cercam nosso cotidiano e, talvez, principalmente, da segurança e da "salvação" que esse  microcosmos aparentemente traz às nossas vidas. Nas palavras da voz da narradora desse filme maravilhoso: "Às vezes, quando nos perdemos no medo e no desespero, na rotina e na constância, na falta de esperança e na tragédia, devemos agradecer a Deus pelos cookies.
E, felizmente, quando acabarem os biscoitos, ainda teremos consolo em uma mão amiga na nossa pele ou num gesto gentil e afetuoso ou num apoio sutil ou num abraço carinhoso ou numa prova de conforto.
Sem falar em macas de hospital, tampões de nariz, folheados não comidos, segredos sussurrados, Fender Stratocasters (um tipo de guitarra) ou talvez alguma obra de ficção.
Devemos lembrar que todas essas coisas, nuances, anomalias e detalhes que parecem superficiais em nossa vida, estão aqui, na verdade, por uma causa bem mais nobre: eles estão aqui para salvar nossas vidas.
Sei que a idéia soa estranha, mas também sei que é verdade."
Para ter, ver e rever.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ficções - Jorge Luís Borges - Abril Cultural, 1972


Ganhei esse livro há um tempo atrás. O conto "A Biblioteca de Babel" foi o primeiro que li e um dos que mais me marcou. A pessoa que me deu esse livro foi quem me apresentou ao maravilhoso mundo do Borges. Tudo culpa dela. 
Depois disso, vieram outros contos do mesmo livro e mais alguns que "baixei" pela internet.
Nessa semana, reli a"A Biblioteca de Babel" e novamente fui tocada pela beleza das palavras desse escritor maravilhoso.
A ideia de que o universo possa ser uma biblioteca é, no mínimo, incrível.
Pensar que talvez seja possível que todas as histórias da humanidade estejam contidas em volumes que se dispõem infinitamente, em linguagens que sequer conhecemos é uma loucura deliciosa.
Sabe, na primeira vez em que li esse conto, pensei  que visitando a biblioteca nós podemos nos deparar com a história da nossa vida mas, se não entendermos a língua ou combinação de letras na qual ela foi escrita, esse livro será um livro como outro qualquer. Exceto pela singularidade de conter a nossa história.
Logo, dá para pensar que somos só mais um livro nessa biblioteca. E, no entanto, somos únicos.
Outra coisa que acho demais nesse conto, é a ideia que existe um Homem do Livro, que conhece toda a biblioteca. Estamos sempre procurando alguém ou alguma coisa que nos explique nosso lugar nesse universo. Não é demais isso?
E o fato de ninguém ter encontrado esse cara, não significa que ele não exista. Pois, a biblioteca é infinita e, talvez, em algum corredor ele esteja folheando o livro total . "Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca Se justifique."
Pensar que o universo seja esse espaço de leitura infinito é uma ideia tão linda...
Será que uma pessoa que não seja apaixonada por leitura conseguiria apreender as possibilidades que essa fantasia encerra? Não sei. Minha solidão, assim como a de Borges, alegra-se com essa esperança.
Delicioso. Profundo. Intensamente verdadeiro.
P.S. Outro conto que adoro é "O Jardim dos caminhos que se bifurcam". Mas, esse fica para outro post.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A viagem do elefante de José Saramago


Para começo de conversa, é Saramago. E se tratando dele, até quando não é excelente, é muito bom.
Há muito tempo atrás comecei a descobrir sua obra por meio do livro "O evangelho segundo Jesus Cristo", do qual não saí do primeiro capítulo.
Depois, algumas amigas leram "O ensaio sobre a cegueira" e tentaram me convencer a fazer o mesmo. Não conseguiram.
Até que, há uns cinco anos atrás, uma aluna de uma das turmas da faculdade na qual trabalhei, me falou com tanta paixão sobre a obra que não resisti. E adorei! Foi e é, até hoje, um dos livros que mais me impactou.
Nesse ano, ganhei de presente da Cínthia (outra apaixonada por livros), "A viagem do elefante". Desde abril ele está ali, ao lado da cabeceira, esperando para ser lido. Experimentado aos poucos entre uma leitura e outra. E foram tantas as pausas...
Demorou para que a minha viagem acertasse o passo. 
O livro narra um fato curioso: a viagem de um elefante por alguns países da Europa. Sim, um legítimo elefante indiano que foi dado de presente de casamento ao arquiduque da Áustria por Dom João III, rei de Portugal.
Para uma mente brilhante como a de Saramago, um episódio como esse é um excelente mote para discorrer de maneira bastante divertida sobre a natureza humana e também elefantina.
Ao longo do relato, o autor nos presenteia com algumas considerações maravilhosas como essa, por exemplo: "Como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa da alma humana é o labirinto. Com ela, tudo é possível." Adorei!!
Confesso que, em vários momentos, senti dificuldade em encontrar razões para seguir as passadas desse paquiderme. O ritmo do texto parece seguir os caprichos de Salomão. Não adianta nos apressarmos. É preciso respeitar suas pesadas passadas.
E não me admiraria se soubesse que Saramago fez isso de propósito. Para nossa delícia e deleite.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Algum dia - Peter H. Reynolds

Há alguns anos, achei esse livro numa prateleira dessas que costumam encher meus olhos nas andanças pelas livrarias afora.
Fui atraída pelo título, pela capa e quando descobri o conteúdo, entendi que não poderia ficar sem ele.
Curiosamente, nós nos encontramos (eu e o livro) em um ano no qual várias amigas próximas descobriram-se grávidas. Comprei-o para mim e, depois, seguidamente, fui presenteando cada uma delas com um exemplar. Sobrou apenas um. O meu. O qual já li nas oficinas do projeto "Letras de luz" em 2008 e que sempre folheio pensando se algum dia poderei fazer minhas as palavras do autor...
Sonho da maior parte das mulheres que, em alguns casos, torna-se uma pressão enorme para as solteiras depois dos 30, a tal maternidade ainda é uma questão não resolvida para mim. Não só pelo fato de não ter um parceiro a quem possa atribuir o papel de co-participante dessa empreitada, mas, porque imagino que essa deve ser uma escolha muito desejada. Sentida. Não posso nem dizer, pensada porque como bem diz o ditado, "quem pensa, não casa". Acho que só se aventura nessa jornada quem se lança. E confesso: ainda me sinto um pouco covarde para esse salto.
O livro é um convite à beleza da continuidade que nos motiva a povoar cada vez mais o mundo.
Não somos eternos. Mas, parte de nós pode seguir adiante naqueles que amamos e aos quais desejamos trazer à vida. E, embora não tenha ainda experimentado a batida de um outro coraçãozinho aqui dentro, senti a emoção desse pedaço de eternidade na primeira vez em que vi meu sobrinho - Arthur - no colo da minha irmã, depois, a chegada do Pedro com todas os traços que herdou de mim e, agora, com a sempre boa nova de que mais gente vem chegando a nossa família: minha cunhada está grávida!
Foi para ela que dei o meu exemplar desse livro.
A vida não pede mesmo licença e nos enche da promessa de alegria!
E é por isso que imagino, sempre que um novo ser começa a ser gestado (mesmo que apenas no sonho), passamos a imaginar que algum dia, um pedacinho de nós vai "passar o dedo na vida" e experimentá-la com toda intensidade. E só por isso, por sabermos que sentiremos a maior experiência de amor possível, talvez valha à pena sonhar, desejar e trazer ao mundo esse alguém.
Fiquei sem o meu exemplar e, certamente, comprarei outro. Ou, quem sabe, algum dia o ganharei de presente quando o desejo da maternidade bater à minha porta?

sábado, 6 de junho de 2009

Os diários de leitura

Desde o começo dessa aventura, mencionei que os diários eram uma proposta que seria incorporada ao Projeto Letras de Luz: iniciativa da qual faço parte com muito orgulho e convicção.

Entre os meses de março e abril fizemos a primeira oficina com os professores de algumas cidades de quatro estados brasileiros: São Paulo, Espírio Santo, Tocantis e Mato Grosso do Sul.

Falamos sobre propósitos e comportamentos leitores, sobre nossos gostos literários, sobre os desafios que devíamos nos impor ao longo do trabalho desse ano. 

Como todo primeiro encontro, o clima foi de encantamento mútuo e vontade de trocar idéias, de partilhar sonhos e projetos comuns. 

Confesso que fiquei bastante ansiosa por saber as impressões que as discussões que provocamos poderiam trazer. E com muita alegria pude constatar que  a segunda oficina foi um verdadeiro encontro com as histórias. As nossas, as dos livros, as dos colegas, as do mundo...Palavras povoaram nossa sala.

Começamos com os Diários de leitura. Capas cheias de criatividade e conteúdo repleto de comentários sobre as mais diversas experiências leitoras. Alguns fizeram suas próprias reflexões sobre livros  que descobriram nesses meses, como as crônicas de Rubem Braga. Outros criaram várias reflexões sobre o ato de ler, registrando-as por meio de colagens. Alguns preferiram copiar as citações, poemas, fragmentos que marcaram sua experiência leitora. Houve quem começasse listando os livros que leu, os que gostaria de ler, os autores favoritos etc. Muitos fizeram os diários das leituras feitas com os alunos. Páginas povoadas de recortes de jornal, receitas, contos, artigos, poemas. Dedicando esse momento para a leitura, descobrimos que ela está presente em todo lugar e pode ser experimentada sempre que ousarmos abrir espaço em nossas vidas para que as palavras sejam soberanas.

Discutimos sobre a importância das histórias na construção de nossas identidades. Somos aquilo que contamos.

O vídeo “Histórias” nos mostrou que povos do mundo inteiro já estiveram e estão ao redor do fogo, narrando acontecimentos fantásticos ou suas próprias epopéias diárias. E com isso, se aproximam, se aconchegam e se reconhecem humanos.

Ouvimos o “Apelo” de Dalton Trevisan nas vozes de diferentes colegas. Notamos que, embora as palavras sejam iguais e na leitura de um texto escrito prevaleça a fidelidade à forma como o autor se expressa, é em nossa entonação, em nossa relação com o texto que deixamos nossa marca para aqueles que nos ouvem.

Reconhecemos que o contar nos expõe: testa nossa memória, nos põe em contato direto com o grupo, abre-se para o gesto, para o tom coloquial e para a improvisação. Narramos e somos narrados a todo momento.

Houve também espaço para o jogo, para o riso solto. Para a palavra que ganha vida a partir da encenação. Muitos participantes experimentaram, pela primeira vez, a delícia da leitura dramática e a força do diálogo na construção de sentidos de uma cena.  Por alguns momentos, pudemos ser  Chicó, João Grilo, Padre João, o Padeiro, Major Antônio Morais, a Gorda, o Puxa, a Professora de Ciências e tantos outros personagens. Mais uma vez, o verbo foi soberano.

E notei que muitos saíram descobrindo-se contadores. Percebendo a importância de trazer de volta as narrativas. Reconhecendo a necessidade do planejamento, da escolha consciente, do preparo, da sensibilidade para estabelecer uma conexão com o grupo e resgatar a “arte de contar histórias”. Um ofício que pode ser acessado por todos aqueles que estiverem dispostos a deixar que a palavra esteja sempre presente em nossas experiências.

Mal posso esperar pelo terceiro encontro para saber sobre as histórias que foram contadas, os textos que foram lidos e as peças que foram levadas ao palco.

Com certeza, as vozes da escrita serão ouvidas muito longe...